Módulo solar com garantia de 30 anos — mas o vidro tem 2 mm
Kiwa PVEL registrou ruptura em 1 de cada 3 módulos testados em 2025. O motivo está na redução do vidro de 3,2 mm para 2,0 mm. Entenda o risco antes de fechar orçamento.
Todo integrador te mostra a garantia no orçamento. “30 anos de performance, 12 anos de produto.” O documento é bonito, a assinatura é digital, o papel timbrado do fabricante chinês tem logo em dourado. O que o integrador não te mostra é o laudo de laboratório que diz que, no segundo trimestre de 2025, quase 1 em cada 3 módulos testados pelo Kiwa PVEL — o principal lab de certificação da indústria — quebrou o vidro durante teste de carga mecânica padrão.
Quebrou. Sem granizo. Sem vento extremo. Sem queda. O vidro rachou sozinho.
A tese
A indústria fotovoltaica encolheu o vidro do módulo de 3,2 mm para 2,0 mm nos últimos cinco anos para reduzir peso e custo. Isso criou uma nova categoria de falha chamada “quebra espontânea de vidro” — e os dados de 2025 mostram que o problema está pior, não melhor. Quem compra módulo hoje assina uma garantia de 30 anos sobre um componente que os próprios labs internacionais estão reprovando em testes básicos de durabilidade.
O que os números dizem
O Kiwa PVEL publica anualmente o PV Module Reliability Scorecard, o relatório de referência da indústria para confiabilidade de módulos. O scorecard de 2025, divulgado em meados daquele ano, registrou que 83% dos fabricantes avaliados reprovaram em pelo menos um teste de confiabilidade de módulo — contra 66% em 2024. O salto é significativo: em um único ano, 17 pontos percentuais a mais de fabricantes com problemas detectados em lab.
O modo de falha mais citado pelo Kiwa PVEL como “o principal problema de confiabilidade afetando módulos hoje” é exatamente a quebra espontânea de vidro em módulos vidro-vidro. No segundo trimestre de 2025, o lab registrou recorde histórico na sequência de testes de estresse mecânico: aproximadamente um terço dos módulos testados teve o vidro partido. No quarto trimestre os resultados melhoraram um pouco — mas ainda com cerca de um quarto dos módulos falhando. Em décadas de fabricação comercial de módulos, jamais havia se visto esses índices.
Tristan Erion-Lorico, vice-presidente de vendas e marketing do Kiwa PVEL, resumiu o problema em entrevista à pv magazine em maio de 2026: “Afinou-se o vidro, o quadro e o encapsulante e adotou-se montagem mais agressiva. No papel, o módulo ‘perfeito’ deveria ser confiável pelo tempo esperado. Mas as margens de segurança foram erodidas, e agora defeitos microscópicos nas bordas ou superfície do vidro, silicone ou adesivo de moldura mal posicionados, tensão de borda, pressão das barras coletoras — tudo isso pode resultar em ruptura do módulo.”
Por que o vidro encolheu — e o que isso muda na prática
A lógica financeira é simples. Vidro representa mais da metade do peso de um módulo. Ir de 3,2 mm para 2,0 mm reduz peso e custo de transporte, facilita logística, diminui carga nas estruturas. Para o fabricante, é redução direta de custo variável. Para o integrador, significa modulo mais barato no orçamento. Para o consumidor, parece ótimo.
O problema técnico aparece na física. Elizabeth Palmiotti, pesquisadora de confiabilidade de módulos do National Laboratory of the Rockies (ex-NREL), publicou em 2026 um estudo com método não-destrutivo para medir a tensão superficial do vidro diretamente em painéis acabados, coletados de campos comerciais com histórico de quebra espontânea. A conclusão foi: vidro de 2,0 mm, mesmo quando plenamente temperado segundo as normas vigentes, tem estresse compressivo superficial mais baixo e camada de proteção mais fina do que o vidro de 3,2 mm. “A espessura dessa camada protetora escala com a espessura geral do vidro. Portanto, vidro de 2,0 mm tem inerentemente uma camada de proteção mais fina do que vidro de 3,2 mm, o que significa que o mesmo defeito pode quebrar um vidro mais fino sem afetar o mais grosso”, explicou Palmiotti à pv magazine.
Em linguagem de campo: o vidro de 2 mm passa no teste mínimo de certificação, mas não tem a mesma margem de segurança do vidro de 3,2 mm das gerações anteriores. Qualquer defeito microscópico de borda, qualquer imprecisão no posicionamento do silicone de moldura, qualquer pressão levemente acima do esperado — e o vidro parte.
Os módulos também cresceram. Um painel de 600+ W tem dimensões físicas maiores do que gerações anteriores. Maior área de vidro + moldura mais fina + trilhos de montagem mais próximos = maior flexão sob carga de vento ou neve (ou simplesmente expansão térmica diária no clima tropical). O vidro mais fino e maior não tem as mesmas margens que o vidro menor e mais espesso de dez anos atrás.
O contra-argumento honesto
Vidro de 2,0 mm não é defeituoso por definição. Há módulos com 2,0 mm que performam bem em campo. O problema documentado pelo Kiwa PVEL, pelo NLR/NREL e pela pv magazine não é que todo módulo atual vai quebrar — é que as margens de segurança foram reduzidas ao ponto de defeitos de fabricação que antes seriam absorvidos agora se tornarem falhas catastróficas. Um módulo bem fabricado, com controle de qualidade rigoroso na têmpera do vidro, na laminação e no posicionamento da moldura, ainda pode ser confiável.
O problema real é: você, como consumidor no Brasil, não tem como saber qual fabricante está dentro desse controle rígido e qual está cortando custos. A certificação IEC 61215 continua sendo o padrão de referência, mas como o próprio Kiwa PVEL aponta, ela não detecta consistentemente esse modo de falha — o lab está justamente revisando seus protocolos de teste em 2026 para incorporar testes de sequência mecânica mais agressivos.
Onde isso te leva
Quando você compra um módulo hoje, a pergunta certa não é “qual a garantia?”. É: “esse fabricante tem scorecard PVEL atualizado com qual resultado nos testes mecânicos?”. A diferença entre um módulo que aparece no Tier 1 de scorecard PVEL com aprovação em testes de carga mecânica e um módulo sem essa certificação pode ser a diferença entre um sistema que dura 25 anos e um que começa a apresentar vidros partidos no quinto ano.
Na minha leitura, há três ações práticas para quem está fechando orçamento agora:
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Peça o scorecard PVEL do modelo específico, não do fabricante em geral. Um mesmo fabricante pode ter modelos aprovados e modelos reprovados. O scorecard 2025 do Kiwa PVEL lista modelo a modelo.
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Prefira fabricantes que especificam espessura do vidro no datasheet. Módulos com vidro de 3,2 mm na frente e 2,0 mm atrás (configuração assimétrica) tendem a ter melhor resultado nos testes mecânicos do que vidro duplo de 2,0 mm. Se o datasheet não informa espessura, pergunte por escrito antes de assinar.
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Leia a cláusula de garantia com atenção a “produto equivalente disponível na data do sinistro”. Quase toda garantia de módulo tem essa cláusula. Na prática, se o modelo específico foi descontinuado, o fabricante substitui por um modelo atual — que pode ter características técnicas completamente diferentes. Isso é padrão da indústria, não fraude, mas precisa ser entendido.
O Kiwa PVEL anunciou em abril de 2026 uma atualização significativa no seu Programa de Qualificação de Módulos Fotovoltaicos, justamente para endereçar o aumento de falhas de campo relacionadas a quebra de vidro e falhas estruturais de moldura. É a primeira vez em anos que o principal lab de certificação da indústria revisa seus protocolos em resposta a uma onda de falhas reais de campo — não por atualização de norma regulatória, mas porque os dados de campo forçaram a revisão.
Isso me diz algo: o problema é real, está em campo hoje, e a indústria está correndo atrás. Quem compra módulo em 2026 ainda está navegando num período de transição, sem os novos protocolos do PVEL validados em volume. A garantia de 30 anos continua no papel do fabricante. A margem de segurança do vidro é o que você precisa checar antes de assinar.
Fontes
- Kiwa PVEL — Solar industry cost-cutting sparks record wave of spontaneous glass breakage (pv magazine, maio 2026)
- Solar modules under pressure: The growing risk of spontaneous glass breakage (pv magazine, janeiro 2026)
- Quebra espontânea de vidro em painéis solares — pv magazine Brasil (junho 2024)
- Kiwa PVEL atualiza programa de qualificação de módulos para endereçar quebra de vidro (pv-tech.org, abril 2026)
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


