segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Instalador furou a telha e o telhado vazou: quem paga a infiltração?

Choveu, o forro manchou e o instalador sumiu do WhatsApp. Veja de quem é a responsabilidade legal pela infiltração causada na instalação solar, com prazos do CDC e o que exigir por escrito antes da próxima chuva.

Bruno Aragão 7 min de leitura
Mancha de infiltração no forro de gesso próxima à passagem de cabos de um sistema solar instalado no telhado
Mancha de infiltração no forro de gesso próxima à passagem de cabos de um sistema solar instalado no telhado

Em Londrina (PR), uma cliente me mandou uma foto pelo WhatsApp em março: uma mancha marrom no forro de gesso do quarto, do tamanho de um prato, exatamente embaixo de onde os cabos do sistema de 5 kWp atravessavam o telhado. O sistema tinha sido instalado em novembro. Na primeira chuva forte de verão, a água achou o caminho. O instalador respondeu duas mensagens e parou.

A pergunta que ela me fez é a mesma que chega aqui toda semana: “Isso é problema meu agora?”

Não é. E o que decide isso não é a boa vontade do instalador. É a lei, o prazo e o que estava escrito no contrato.

O que aconteceu no telhado (e por que vaza)

Painel solar não fura telha por acaso. A fixação da estrutura exige perfurar a cobertura para prender os ganchos ou parafusos nas terças de madeira ou nas terças metálicas embaixo. Cada furo é um ponto onde a água pode entrar se a vedação for malfeita.

Em telha cerâmica, o gancho passa por baixo da telha e idealmente não fura nada, mas o instalador apressado fura mesmo assim para ganhar tempo. Em telha de fibrocimento ou metálica, o parafuso atravessa a chapa e precisa de uma vedação de borracha EPDM ou de mástique específico. Vedação de silicone comum de banheiro resseca em um verão e racha. Foi isso que aconteveu em Londrina.

A infiltração quase nunca aparece na hora. Aparece na primeira chuva de vento forte, semanas ou meses depois, quando a água é empurrada lateralmente para dentro do furo. Por isso tanta gente acha que “o telhado já tinha problema”. Tinha não. O furo é novo, e a relação entre causa e efeito é direta.

A escolha do tipo de telha muda bastante o risco de furo malfeito. Se você ainda está na fase de orçamento, vale entender como cada tipo de telhado se comporta com a instalação solar antes de fechar.

Quem é o responsável, segundo a lei

A resposta curta tem nome e número: é o instalador, com base no Código de Defesa do Consumidor. O artigo 14 da Lei 8.078/1990 trata da responsabilidade pelo fato do serviço, e diz que o fornecedor responde por defeitos relativos à prestação do serviço, independente de culpa. Em português: você não precisa provar que ele foi negligente, só que o serviço dele causou o dano.

Há dois prazos que você precisa guardar. O artigo 26 do CDC dá 90 dias para reclamar de vícios aparentes em serviços duráveis, contados a partir do momento em que o defeito fica evidente. Como a infiltração é um vício oculto (não dava para ver na entrega), o prazo começa a correr quando a mancha aparece, não na data da instalação.

O segundo prazo é mais longo e mais importante. O artigo 618 do Código Civil dá cinco anos de garantia legal para a solidez e a segurança de obras, e tribunais brasileiros já aplicaram esse prazo a serviços de instalação que afetam a estrutura da edificação. Telhado que vaza por furo de fixação solar se encaixa nisso. Cinco anos é bastante tempo para o instalador não conseguir alegar que “o prazo já passou”.

Atenção a uma confusão comum. A garantia de 25 anos do módulo e a de 10 anos do inversor são do fabricante e não têm nada a ver com isso. O furo na telha é responsabilidade da mão de obra, um item que muita gente nem sabe que precisa estar no contrato. Entender como funciona a garantia de mão de obra na instalação solar é o que separa quem cobra com firmeza de quem aceita pagar o próprio prejuízo.

Por que isso importa pra você (e quanto custa errar)

A conta de uma infiltração ignorada cresce sozinha. Refiz o orçamento do caso de Londrina com valores de mercado de 2026 para enxergar o tamanho do risco financeiro de deixar passar.

ItemReparo imediatoSe esperar 1 ano
Revedação dos furosR$ 350 a R$ 700R$ 350 a R$ 700
Troca do forro de gesso manchadoR$ 600 a R$ 1.200R$ 600 a R$ 1.200
Tratamento de mofo na alvenarianão aplicávelR$ 800 a R$ 2.500
Troca de fiação interna molhadanão aplicávelR$ 400 a R$ 1.500
Total estimadoR$ 950 a R$ 1.900R$ 2.200 a R$ 5.900

A água não fica parada. Ela desce pela estrutura, atinge a fiação elétrica embutida e cria mofo que vira problema de saúde antes de virar problema de obra. O que custaria menos de R$ 2 mil resolvido na primeira chuva passa de R$ 5 mil quando vira rotina de gotejamento por uma estação inteira.

E tem um agravante que poucos consideram: se o sistema solar não tinha laudo estrutural e projeto com ART, a sua seguradora residencial pode usar isso para negar cobertura de um sinistro maior. Vale conferir o que acontece quando o instalador omite o laudo estrutural do telhado, porque o documento que falta hoje é a brecha que o seguro usa amanhã.

O que fazer com isso agora

A ordem importa. Fazer na sequência errada enfraquece a sua prova e dá ao instalador o argumento de que você “mexeu antes de avisar”. Siga assim:

  1. Fotografe e filme antes de tocar em nada. Mancha no forro, ponto exato no telhado, data visível no celular. Filme a chuva entrando se conseguir. Essa é a prova de nexo causal entre o furo e o vazamento.
  2. Notifique o instalador por escrito. WhatsApp serve, mas e-mail é melhor. Descreva o problema, anexe as fotos e peça reparo em prazo definido (10 dias é razoável). Guarde o comprovante de envio. Isso marca o início formal da reclamação no CDC.
  3. Não autorize reparo de terceiro sem registrar a recusa dele. Se ele sumir, contrate quem resolva, mas só depois de documentar que ele foi avisado e não respondeu. O recibo do reparo vira base de cobrança de ressarcimento.
  4. Se o valor justificar, abra reclamação no Procon e registre na plataforma consumidor.gov.br. A maioria dos casos resolve aqui, sem advogado, porque o instalador sabe que perde no Juizado.
  5. Se ele simplesmente desapareceu, o caminho muda de figura. Veja o que fazer quando o instalador some depois da instalação e a garantia fica no ar, porque aí o foco vira localizar CNPJ e responsável técnico.

A cliente de Londrina mandou o e-mail com prazo de 10 dias no dia seguinte à nossa conversa. O instalador reapareceu no oitavo. Refez a vedação com EPDM, trocou o forro e a conta dela ficou em zero. A diferença entre pagar R$ 4 mil e pagar nada foi uma foto tirada na hora certa e uma mensagem com prazo por escrito.

FAQ

O instalador disse que o telhado já tinha problema antes. Como provo que não? A prova mais forte é a localização. Se a infiltração está exatamente embaixo de um furo de fixação novo, o nexo é evidente. Um laudo de engenheiro com ART confirma a origem por R$ 400 a R$ 800, e esse custo entra no pedido de ressarcimento se ele for o responsável.

Tenho que aceitar que o próprio instalador faça o reparo? Pela lógica do CDC, sim, dê a ele a primeira chance de corrigir o vício no prazo que você definiu. Se ele recusar, enrolar ou fizer mal de novo, você fica livre para contratar terceiro e cobrar o valor dele. Documente cada etapa.

Passou mais de 90 dias da instalação. Perdi o direito? Não. O prazo de 90 dias do artigo 26 conta a partir de quando o vício oculto aparece, não da entrega. E a garantia de cinco anos do artigo 618 do Código Civil para solidez da obra costuma cobrir esse tipo de dano estrutural por bem mais tempo.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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