sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Sítio em Jaguariúna (SP) sem rede: o cálculo do sistema off-grid pra bomba de cacimba e luz da casa

Cliente comprou sítio sem energia elétrica e pediu um sistema off-grid pra bomba de poço, geladeira e iluminação. Dimensionei 2,4 kWp de painel + 7,2 kWh de bateria LiFePO4. Mostro o cálculo.

Tatiana Mendes 4 min de leitura
Sistema off-grid em sítio rural com painéis solares, controlador MPPT e banco de bateria LiFePO4
Sistema off-grid em sítio rural com painéis solares, controlador MPPT e banco de bateria LiFePO4

A Lúcia comprou um sítio de 1,2 hectare em Jaguariúna (SP) no fim de 2025, pensando em fazer hospedagem rural pequena nos fins de semana. O lote tinha cacimba boa, mas estava a 1,4 km do poste da CPFL mais próximo. O orçamento que a concessionária mandou pra extensão de rede até o sítio: R$ 38.400, com 8 a 14 meses de espera por aprovação de projeto e cronograma de obras. Ela me ligou perguntando se era melhor instalar solar off-grid e largar a rede de vez. Resposta: sim, mas com cálculo certo. Sistema final ficou em R$ 27.800, instalado em 11 dias, e está rodando há 5 meses sem precisar voltar pra mexer. Vou abrir como cheguei nos números — porque off-grid é onde mais se erra dimensionamento.

O que aconteceu

Listei com a Lúcia as cargas que o sítio precisa atender. Não é casa urbana — é uso intermitente, fim de semana com hóspedes, semana com caseiro que vai duas vezes pra checar.

Cargas levantadas:

  • Bomba submersa 1/2 cv (370 W) na cacimba — roda 2h por dia em média (enche caixa d’água de 5.000 L)
  • Geladeira de 280 L (consumo médio 1,1 kWh/dia)
  • Freezer horizontal 220 L (1,4 kWh/dia)
  • Iluminação LED da casa (8 pontos, 9W cada, 4h/noite) = 0,29 kWh/dia
  • Tomadas de uso eventual (celular, notebook, liquidificador) — estimei 0,8 kWh/dia
  • Chuveiro elétrico foi excluído de propósito (gás aquece água via boiler)

Consumo total estimado: 4,6 kWh/dia. Pico de potência simultânea estimado: 1.100 W (bomba + freezer + 1 LED + tomadas).

Por que esse cálculo não é igual ao de casa conectada

No on-grid, você dimensiona pra média anual e a rede absorve o desbalanço dia/noite. No off-grid, você dimensiona pro pior cenário — dias seguidos com pouco sol — e a bateria precisa cobrir isso. Em Jaguariúna, HSP médio anual é 4,7 kWh/m²/dia, mas em junho-julho cai pra 3,9 e ocorrem semanas com 2-3 dias nublados seguidos.

Regra prática que aplico: bateria com autonomia de 1,5 dia de consumo + painel com 30% de sobrepotência sobre o consumo médio do dia mais nublado do ano.

Os números do sistema

Painel solar: 4 módulos Trina Vertex S+ 580W = 2.320 Wp totais. No HSP de 4,7 (média anual), gera 8,2 kWh/dia. No dia ruim de junho (HSP 3,9 com nuvens), gera 5,4 kWh/dia. Margem confortável sobre o consumo de 4,6.

Controlador de carga MPPT: Victron SmartSolar 100/50 (R$ 2.200). Suporta 2,4 kWp em 48V.

Banco de bateria: 1 módulo Pylontech US3000C 3,55 kWh + 1 módulo de 3,65 kWh (configuração mista que economiza R$ 1.800 vs 2 US3000C). Total 7,2 kWh úteis em 48V LiFePO4. Autonomia teórica de 1,56 dia.

Inversor: Victron MultiPlus-II 48V 3000VA (R$ 8.400). Tem entrada pra gerador a gasolina de backup (instalei um pequeno Yamaha 2 kVA que a Lúcia já tinha — só pra emergência prolongada).

Custo total instalado: R$ 27.800 (equipamento R$ 22.100 + estrutura + cabos + mão de obra + projeto).

Por que LiFePO4 e não chumbo-ácido

Bateria de chumbo-ácido estacionária custaria R$ 3.200 contra R$ 14.800 da LiFePO4 — diferença grande no preço inicial. Mas:

  • Chumbo-ácido aceita 50% de profundidade de descarga prática (pra durar). LiFePO4 aceita 90%.
  • Chumbo-ácido em ciclo diário dura 4-5 anos em uso pesado. LiFePO4 dura 12-15 anos com 6.000 ciclos.
  • Chumbo-ácido perde 1% por mês em standby. LiFePO4 perde 1-2% por ano.

Em 12 anos de uso, o cliente da chumbo-ácido troca o banco 2-3 vezes. Custo total acumulado: R$ 9.600 a R$ 14.400 em substituições. LiFePO4 fica em R$ 14.800 e ainda tem 30% de vida útil sobrando no fim do prazo. Diferença real diluída no tempo: zero, com a vantagem de não voltar pra trocar bateria a cada 4 anos.

A parte que dá errado em off-grid mal feito

Erro número 1: integrador subdimensiona painel pra economizar e a bateria nunca atinge 100% no inverno. Em 18 meses a bateria começa a degradar prematuramente porque LiFePO4 gosta de ciclo completo.

Erro número 2: usar inversor PWM em vez de MPPT (diferença de R$ 600 vira perda de 25% de geração).

Erro número 3: não prever carga futura. A Lúcia falou em hospedagem rural — perguntei se planeja instalar ar-condicionado. Disse que sim, em 2 anos. Já dimensionei o inversor pra suportar (3000 VA aguenta split de 9.000 BTU) e deixei espaço de estrutura no telhado pra mais 4 módulos quando ela quiser ampliar pra 4,6 kWp.

A conta versus a CPFL

Extensão de rede CPFL: R$ 38.400 + 8-14 meses de espera + conta mensal de R$ 200-400 dependendo de uso.

Sistema off-grid: R$ 27.800 + 11 dias de obra + zero conta mensal nos próximos 12-15 anos.

A diferença de R$ 10.600 menos a conta evitada pagou o sistema em si.

Fontes

  • Histórico HSP Jaguariúna — Atlas Brasileiro de Energia Solar (INPE/CRESESB)
  • Datasheets Victron MultiPlus-II e SmartSolar MPPT 100/50
  • Datasheet Pylontech US3000C LiFePO4
  • Tabela de extensão de rede CPFL Paulista (referência cliente, abril/2026)
  • Dimensionamento conforme NBR 16690:2019 e NBR 5410:2004
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Escrito por

Tatiana Mendes

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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