Financiamento ou à vista no solar? Calculei TIR e VPL nas 3 modalidades
Integrador te diz que financiamento "não compensa pelo juro". Eu refiz a conta com TIR e VPL reais pra um sistema de 4 kWp em Recife. Quem ganha depende de uma pergunta que ninguém faz.
Na semana passada, um cliente em Recife me ligou depois de receber duas propostas: uma à vista de R$ 22 mil e outra financiada pelo Sicredi a 84 meses. O integrador havia anotado no rodapé da proposta financiada: “atenção — com juros, você paga R$ 8.500 a mais”. E o cliente quase desistiu por isso.
Esse número é verdadeiro. E ao mesmo tempo, conta metade da história.
Peguei a planilha, refiz os três cenários possíveis para o perfil dele — capital próprio, BNDES via cooperativa e CDC de banco grande — e o que encontrei inverte a recomendação mais comum que integradores dão. Spoiler: o problema não é o juro. É a pergunta errada.
O que aconteceu: três cenários para o mesmo sistema
O sistema em questão: 4 kWp, Recife (PE). Premissas que uso em todo cálculo desse tipo — e que todo integrador deveria colocar no papel:
- HSP Recife: 5,8 kWh/m²/dia (fonte: CRESESB/Atlas Solarimétrico do Brasil)
- Performance ratio: 80% (temperatura, sombreamento leve, perdas de cabeamento — padrão conservador)
- Geração ano 1: 4 × 5,8 × 365 × 0,80 = 6.774 kWh/ano
- Tarifa Equatorial NE (B1 + Fio B 60%): R$ 0,87/kWh (premissa; verifique a sua fatura — pode ser maior)
- Economia mensal ano 1: 6.774 ÷ 12 × R$ 0,87 = R$ 491/mês
- Degradação: 0,55% ao ano (datasheet padrão dos fabricantes Tier 1)
- Reajuste tarifário: 6% ao ano (conservador — histórico ANEEL aponta 8 a 10% ao ano na última década)
- Custo do sistema instalado: R$ 22.000
- Horizonte de análise: 25 anos (vida útil dos módulos)
Com essas premissas, calculei TIR e VPL descontado a 8% ao ano (custo de oportunidade de Tesouro IPCA+ de longo prazo como referência) para três caminhos:
| Modalidade | Taxa | Parcela | Custo total | Fluxo mês 1 | TIR (25a) | VPL (8% aa) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Capital próprio | — | R$ 22.000 à vista | R$ 22.000 | -R$ 22.000 + R$ 491 | ~23% aa | ~R$ 28.400 |
| BNDES/Sicredi | 10% aa (0,80% am) | R$ 364/mês | R$ 30.576 | +R$ 127/mês | n/a* | ~R$ 36.800* |
| CDC BV Solar | 15,5% aa (1,21% am) | R$ 436/mês | R$ 36.624 | +R$ 55/mês | n/a* | ~R$ 20.100* |
*TIR sobre capital próprio zero é matematicamente infinita no BNDES/Sicredi caso você não tenha o dinheiro disponível. VPL calculado como fluxo livre de caixa (economia — parcela) durante 84 meses, depois economia líquida por mais 17 anos.
Por que isso importa pra você
A pergunta certa não é “qual modalidade tem menor custo total?” — é “qual é o custo de oportunidade do meu capital agora?”
Se você tem os R$ 22 mil disponíveis, a TIR de ~23% ao ano é muito superior a qualquer renda fixa de prazo equivalente. Tesouro IPCA+ de 25 anos paga hoje em torno de 7,5% ao ano real — pouco mais de um terço. Aqui, mesmo descontando risco (integrador some, módulo trinca), o prêmio é considerável. Esse é o melhor cenário financeiro.
Se você não tem os R$ 22 mil e dependeria de resgate de aplicações rendendo 13-14% ao ano, ou de crédito de emergência futuro, o BNDES via cooperativa muda a lógica: você começa a poupar R$ 127 por mês desde a instalação, sem desembolso. Em 84 meses, o fluxo acumulado positivo é de mais de R$ 10.600 — mesmo depois de pagar R$ 8.500 em juros.
O CDC de banco grande ainda entrega fluxo positivo (R$ 55/mês), mas a margem é estreita. Qualquer bandeira tarifária vermelha puxaria esse número pra cima, mas uma queda de geração (sombreamento novo, módulo sujo) pode apertar o caixa num mês ruim.
Eu não faria o CDC de banco grande se tivesse qualquer acesso à linha BNDES. A diferença de R$ 72/mês na parcela compra muito risco.
O contra-argumento honesto (e onde a conta pode falhar)
A tabela acima assume que a economia mensal é real e estável. Três coisas podem derrubar esse cálculo:
1. Tarifa não cresce 6% ao ano. Se o governo segurar reajuste por pressão política (aconteceu em 2012-2014 e a conta chegou depois), a economia real nos primeiros anos é menor, alongando o payback efetivo.
2. Fio B sobe conforme calendário da Lei 14.300. Em 2027, a fração cobrada sobe para 75% da TUSD. Isso reduz o crédito de energia injetada na rede (o que você exporta ao vizinho vale menos). O impacto depende do quanto você autoconsome — se for mais de 70%, a diferença é pequena. Abaixo de 50% de autoconsumo, o VPL cai até 15%.
3. Financiamento com prestação variável (CDC com taxa pós-fixada). Alguns contratos de banco grande atrelam a prestação ao CDI. Se o CDI subir, a parcela sobe — e a economia na conta de luz não sobe junto no mesmo mês. Leia o contrato. Prefira taxa prefixada.
O que fazer com isso agora
- Antes de assinar qualquer coisa: peça ao integrador a planilha com fluxo de caixa mês a mês, não só o payback simples.
- Se for financiar, compare oferta BNDES via cooperativa (Sicredi, Sicoob) com CDC de banco. A diferença de custo anual é real — R$ 864/ano a menos na parcela.
- Calcule seu autoconsumo real: se você fica em casa durante o dia e usa chuveiro, ar e geladeira simultaneamente, autoconsumo alto (mais de 70%) — o Fio B machuca menos.
- Para quem tem capital próprio: a TIR de ~23% pra Recife é sólida. Mas refaça a conta com HSP da sua cidade — em Curitiba (HSP 4,1), a TIR cai para ~15% no mesmo kit de R$ 22 mil, e o risco-benefício muda.
A palavra “juro” no rodapé da proposta de financiamento não é, por si só, o inimigo. O inimigo é fechar sem entender o fluxo de caixa completo.
Fontes
- BNDES Finame Baixo Carbono — taxas e condições vigentes
- CRESESB — Atlas Solarimétrico do Brasil (HSP por município)
- Canal Solar — Investimento em energia solar: tipos, vantagens e como calcular
- Portal Solar — Financiamento para energia solar (linhas de crédito 2026)
- ANEEL — Ranking de Tarifas Residenciais por distribuidora
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


