sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Financiamento ou à vista no solar? Calculei TIR e VPL nas 3 modalidades

Integrador te diz que financiamento "não compensa pelo juro". Eu refiz a conta com TIR e VPL reais pra um sistema de 4 kWp em Recife. Quem ganha depende de uma pergunta que ninguém faz.

Bruno Aragão 5 min de leitura
Documentos financeiros, calculadora e proposta de sistema solar sobre mesa de trabalho
Documentos financeiros, calculadora e proposta de sistema solar sobre mesa de trabalho

Na semana passada, um cliente em Recife me ligou depois de receber duas propostas: uma à vista de R$ 22 mil e outra financiada pelo Sicredi a 84 meses. O integrador havia anotado no rodapé da proposta financiada: “atenção — com juros, você paga R$ 8.500 a mais”. E o cliente quase desistiu por isso.

Esse número é verdadeiro. E ao mesmo tempo, conta metade da história.

Peguei a planilha, refiz os três cenários possíveis para o perfil dele — capital próprio, BNDES via cooperativa e CDC de banco grande — e o que encontrei inverte a recomendação mais comum que integradores dão. Spoiler: o problema não é o juro. É a pergunta errada.

O que aconteceu: três cenários para o mesmo sistema

O sistema em questão: 4 kWp, Recife (PE). Premissas que uso em todo cálculo desse tipo — e que todo integrador deveria colocar no papel:

  • HSP Recife: 5,8 kWh/m²/dia (fonte: CRESESB/Atlas Solarimétrico do Brasil)
  • Performance ratio: 80% (temperatura, sombreamento leve, perdas de cabeamento — padrão conservador)
  • Geração ano 1: 4 × 5,8 × 365 × 0,80 = 6.774 kWh/ano
  • Tarifa Equatorial NE (B1 + Fio B 60%): R$ 0,87/kWh (premissa; verifique a sua fatura — pode ser maior)
  • Economia mensal ano 1: 6.774 ÷ 12 × R$ 0,87 = R$ 491/mês
  • Degradação: 0,55% ao ano (datasheet padrão dos fabricantes Tier 1)
  • Reajuste tarifário: 6% ao ano (conservador — histórico ANEEL aponta 8 a 10% ao ano na última década)
  • Custo do sistema instalado: R$ 22.000
  • Horizonte de análise: 25 anos (vida útil dos módulos)

Com essas premissas, calculei TIR e VPL descontado a 8% ao ano (custo de oportunidade de Tesouro IPCA+ de longo prazo como referência) para três caminhos:

ModalidadeTaxaParcelaCusto totalFluxo mês 1TIR (25a)VPL (8% aa)
Capital próprioR$ 22.000 à vistaR$ 22.000-R$ 22.000 + R$ 491~23% aa~R$ 28.400
BNDES/Sicredi10% aa (0,80% am)R$ 364/mêsR$ 30.576+R$ 127/mêsn/a*~R$ 36.800*
CDC BV Solar15,5% aa (1,21% am)R$ 436/mêsR$ 36.624+R$ 55/mêsn/a*~R$ 20.100*

*TIR sobre capital próprio zero é matematicamente infinita no BNDES/Sicredi caso você não tenha o dinheiro disponível. VPL calculado como fluxo livre de caixa (economia — parcela) durante 84 meses, depois economia líquida por mais 17 anos.

Por que isso importa pra você

A pergunta certa não é “qual modalidade tem menor custo total?” — é “qual é o custo de oportunidade do meu capital agora?”

Se você tem os R$ 22 mil disponíveis, a TIR de ~23% ao ano é muito superior a qualquer renda fixa de prazo equivalente. Tesouro IPCA+ de 25 anos paga hoje em torno de 7,5% ao ano real — pouco mais de um terço. Aqui, mesmo descontando risco (integrador some, módulo trinca), o prêmio é considerável. Esse é o melhor cenário financeiro.

Se você não tem os R$ 22 mil e dependeria de resgate de aplicações rendendo 13-14% ao ano, ou de crédito de emergência futuro, o BNDES via cooperativa muda a lógica: você começa a poupar R$ 127 por mês desde a instalação, sem desembolso. Em 84 meses, o fluxo acumulado positivo é de mais de R$ 10.600 — mesmo depois de pagar R$ 8.500 em juros.

O CDC de banco grande ainda entrega fluxo positivo (R$ 55/mês), mas a margem é estreita. Qualquer bandeira tarifária vermelha puxaria esse número pra cima, mas uma queda de geração (sombreamento novo, módulo sujo) pode apertar o caixa num mês ruim.

Eu não faria o CDC de banco grande se tivesse qualquer acesso à linha BNDES. A diferença de R$ 72/mês na parcela compra muito risco.

O contra-argumento honesto (e onde a conta pode falhar)

A tabela acima assume que a economia mensal é real e estável. Três coisas podem derrubar esse cálculo:

1. Tarifa não cresce 6% ao ano. Se o governo segurar reajuste por pressão política (aconteceu em 2012-2014 e a conta chegou depois), a economia real nos primeiros anos é menor, alongando o payback efetivo.

2. Fio B sobe conforme calendário da Lei 14.300. Em 2027, a fração cobrada sobe para 75% da TUSD. Isso reduz o crédito de energia injetada na rede (o que você exporta ao vizinho vale menos). O impacto depende do quanto você autoconsome — se for mais de 70%, a diferença é pequena. Abaixo de 50% de autoconsumo, o VPL cai até 15%.

3. Financiamento com prestação variável (CDC com taxa pós-fixada). Alguns contratos de banco grande atrelam a prestação ao CDI. Se o CDI subir, a parcela sobe — e a economia na conta de luz não sobe junto no mesmo mês. Leia o contrato. Prefira taxa prefixada.

O que fazer com isso agora

  • Antes de assinar qualquer coisa: peça ao integrador a planilha com fluxo de caixa mês a mês, não só o payback simples.
  • Se for financiar, compare oferta BNDES via cooperativa (Sicredi, Sicoob) com CDC de banco. A diferença de custo anual é real — R$ 864/ano a menos na parcela.
  • Calcule seu autoconsumo real: se você fica em casa durante o dia e usa chuveiro, ar e geladeira simultaneamente, autoconsumo alto (mais de 70%) — o Fio B machuca menos.
  • Para quem tem capital próprio: a TIR de ~23% pra Recife é sólida. Mas refaça a conta com HSP da sua cidade — em Curitiba (HSP 4,1), a TIR cai para ~15% no mesmo kit de R$ 22 mil, e o risco-benefício muda.

A palavra “juro” no rodapé da proposta de financiamento não é, por si só, o inimigo. O inimigo é fechar sem entender o fluxo de caixa completo.

Fontes

B

Escrito por

Bruno Aragão

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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