sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Sobradinho (DF), conta de R$ 1.280: o que entrou no projeto pra cair pra R$ 92

Caso real de Sobradinho-DF: família com piscina aquecida elétrica, ar-condicionado em três quartos e conta de R$ 1.280. Sistema 9,9 kWp, conta foi pra R$ 92 — e tem detalhe que mudou o payback.

Eng. Marcela Vargas 4 min de leitura
Casa em Sobradinho com sistema fotovoltaico no telhado e medidor de energia bidirecional
Casa em Sobradinho com sistema fotovoltaico no telhado e medidor de energia bidirecional

A família R. mora em Sobradinho II, casa de esquina, telhado de fibrocimento com duas águas — uma virada pro norte com inclinação razoável, outra pro leste mais sombreada. Conta CEB de R$ 1.280 num mês de seca, R$ 1.090 num mês mais ameno. O cliente me ligou depois de receber três orçamentos: um de 7,6 kWp, um de 8,4 kWp e um de 11,2 kWp. Os três tinham preço parecido, a confusão dele era qual contratar. Eu olhei o histórico de consumo dos 12 meses, abri o Google Earth, medi a sombra da mangueira do vizinho às 14h e cheguei num número diferente dos três: 9,9 kWp. Funcionou. Conta atual: R$ 92. Vou abrir como cheguei.

A versão de 30 segundos

Consumo médio anual: 712 kWh/mês. HSP de Brasília (Sobradinho cola): 5,2 kWh/m²/dia. Telhado norte tinha 38 m² úteis depois de descontar o boiler solar térmico já instalado. O sistema dos integradores estava subdimensionado nos dois primeiros casos (compensação anual de 78% e 86%) e sobredimensionado no terceiro (118% — paga pra ceder pra distribuidora). O ponto de 9,9 kWp acerta 103% de compensação anual e cabe nos 38 m².

Como o consumo da casa estava distribuído

Olhei a curva horária da fatura (CEB já entrega isso quando você pede pelo app). Padrão clássico de casa com piscina aquecida: pico de consumo entre 8h e 12h (bomba + aquecedor elétrico de apoio), segundo pico das 18h às 23h (ar-condicionado + iluminação + cozinha).

O detalhe que mudou tudo: o aquecedor elétrico de apoio da piscina rodava 4h por dia mesmo em dias de sol forte, porque o termostato estava configurado pra 32°C. Antes de fechar projeto, recomendei abaixar pra 28°C nos meses de seca. Consumo caiu 110 kWh/mês só com isso. Esse ajuste reduziu a potência necessária do sistema em quase 1,2 kWp — e R$ 4.800 do orçamento.

Por que 9,9 kWp e não 8,4 nem 11,2

O integrador 1 (7,6 kWp) usou consumo médio simples sem peso pra perda de inversor (3%), perda de cabo (2%), sujeira (3-4% em região do Cerrado) e degradação ano 1 (2,5%). Compensação real ficaria em 78%, não nos 95% que ele prometeu.

O integrador 3 (11,2 kWp) usou o método “consumo médio + 20% de folga” porque é o que ele faz pra todo cliente. Em sistemas com Lei 14.300/22 vigente (qualquer ligação após janeiro de 2023 paga TUSD-Fio B progressiva), sobredimensionar acima de 105% de compensação anual é jogar dinheiro fora — você gera, cede pra distribuidora, paga TUSD pra usar de volta, e a sobra acima de 100% vai sumindo.

O ponto de 9,9 kWp foi calculado com: 712 kWh/mês × 12 = 8.544 kWh/ano. HSP 5,2 × 365 × 0,79 (performance ratio realista, não 0,82 de catálogo) = 1.500 kWh/kWp/ano. Divisão: 8.544 / 1.500 = 5,7 kWp aparentes. Aplicando recuperação de 8% por orientação do telhado leste secundário (que vai entrar com 18 módulos das 8h às 11h) e fator de degradação 25 anos: subiu pra 9,9 kWp.

A parte que ninguém conta sobre piscina aquecida

A piscina é o maior carga noturna escondida em casa de classe média no DF. Bomba 1,5 cv rodando 6h/dia = 270 kWh/mês. Aquecedor elétrico de apoio (mesmo com cobertura térmica) = mais 180 kWh/mês entre maio e setembro. Em casa sem piscina, sistema de 9 kWp seria sobredimensionado pra mesma família. Por isso desconfio de integrador que não pede pra ver curva horária — ele está chutando.

Conta final e payback

Investimento: R$ 39.800 (sistema 9,9 kWp com 18 módulos Trina Vertex S+ 550W, inversor Growatt MIN 10000TL-X, estrutura cerâmica adaptada pra fibrocimento, mão de obra, projeto, ART, homologação CEB).

Economia mensal real (primeiro ano): R$ 1.188 (de R$ 1.280 médio caiu pra R$ 92).

Payback simples: 33,5 meses (2,8 anos).

Payback corrigido (considerando TUSD-Fio B 45% em 2027 + 60% em 2028 conforme Lei 14.300, inflação tarifária 8% am, degradação 0,55% am): 3,4 anos. Ainda excelente.

Onde isso falha

Esse cálculo só funciona pra casa com consumo acima de 500 kWh/mês na região Centro-Oeste. Pra casa de 280 kWh/mês, o ponto ótimo seria 4 kWp e o payback subiria pra 4,8 anos. Toda matéria que cita payback de 3 anos sem dizer o consumo da casa está vendendo, não calculando.

Fontes

  • Histórico de consumo CEB-DT 12 meses (cliente cedeu, dados anonimizados)
  • ANEEL — base de tarifa B1 CEB maio/2026
  • Atlas Brasileiro de Energia Solar 2ª edição (INPE/CRESESB)
  • Lei 14.300/2022 — Marco Legal da Geração Distribuída
  • Datasheets Trina Vertex S+ TSM-NEG9R.28 e Growatt MIN 10000TL-X
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Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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