Solar pra carregar carro elétrico em casa: quantos kWp a mais?
Comprou um elétrico ou vai comprar? Calculei quanto o carregamento doméstico adiciona ao seu consumo e quantos kWp extras o sistema solar precisa — por modelo e quilometragem.
Recebi a mensagem de um leitor de Campinas mês passado: “Marcela, fechei o solar de 5 kWp ano passado pra zerar a conta. Agora comprei um BYD Dolphin. Meu sistema dá conta?” A resposta curta é não — e ele não está sozinho nesse erro. O carro elétrico é, na prática, um segundo ar-condicionado que você ligou pra sempre. Quem dimensionou solar pensando só na casa vai ver a conta de luz voltar a subir no mês seguinte à primeira recarga.
A boa notícia: dá pra prever quanto kWp extra você precisa antes de comprar o carro. E o número costuma assustar menos do que o medo.
O que importa decidir antes da conta
Carregar carro em casa não é uma variável só. São quatro, e errar em qualquer uma estoura o orçamento ou deixa o sistema curto:
- Quanto você roda por mês. A diferença entre 800 km e 2.000 km/mês muda o sistema em mais de 2 kWp. Quilometragem é o fator dominante, não o modelo.
- A eficiência do carro (kWh/100 km). Um Dolphin Mini gasta cerca de 13 kWh/100 km; uma picape elétrica grande passa de 22. O mesmo trajeto, consumos muito diferentes.
- Onde você mora (HSP). O mesmo consumo extra vira 2 kWp em Fortaleza e quase 3 kWp em Curitiba. Sol não é igual no Brasil — e isso é a metade da conta.
- Quando você carrega. Carregar de dia, com o sol batendo, é autoconsumo puro. Carregar de madrugada joga você no jogo do Fio B, que em 2026 cobra 60% sobre a energia que você injetou de dia pra puxar de volta à noite.
Esse último ponto é o que quase todo integrador ignora. Vamos por partes.
A conta do consumo extra: kWh por mês
Comece pela fórmula simples de consumo do carro:
kWh/mês = (km por mês ÷ 100) × consumo do carro (kWh/100 km)
Um carro rodando 1.200 km/mês com consumo de 15 kWh/100 km gasta 180 kWh/mês só pra andar. Isso já é metade da conta de uma família pequena. Para converter esse consumo extra em painéis, uso a régua de sempre:
kWp extra = consumo extra (kWh/mês) ÷ (HSP × 30 × 0,80)
Onde HSP é a média de horas de sol pleno da sua cidade (banco SunData do CRESESB/CEPEL, a base oficial brasileira — CRESESB) e 0,80 é o rendimento real do sistema depois de perdas em inversor, cabo, temperatura e sujeira.
Se você ainda não dimensionou o sistema da casa, vale fazer isso primeiro com calma — expliquei o passo a passo em como calcular quantos kWp a casa precisa. A parte do carro é um acréscimo a esse número, não um cálculo separado.
Tabela: kWp extra por modelo e quilometragem
Os consumos abaixo são as médias declaradas/medidas dos modelos mais vendidos no Brasil (INMETRO/PBEV — Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular). Usei dois cenários de uso e HSP de São Paulo (4,5) como referência média do país.
| Modelo | Consumo (kWh/100 km) | 800 km/mês | 1.500 km/mês |
|---|---|---|---|
| BYD Dolphin Mini | ~13 | +1,0 kWp | +1,8 kWp |
| BYD Dolphin / Yuan | ~15 | +1,1 kWp | +2,1 kWp |
| Volvo EX30 | ~17 | +1,3 kWp | +2,4 kWp |
| GWM Ora 03 | ~16 | +1,2 kWp | +2,2 kWp |
| Picape/SUV elétrico grande | ~22 | +1,6 kWp | +3,1 kWp |
Em módulos de 550 W, +2 kWp são cerca de 4 painéis. Em telhado que já tem espaço, é uma ampliação modesta. O problema aparece quando o telhado já está cheio — aí a conversa muda pra otimização de orientação, microinversor ou até aluguel de telhado, e não pra “põe mais quatro painéis”.
Minha escolha e por quê
Se você está comprando o carro e o solar ao mesmo tempo, dimensione tudo junto e mire o autoconsumo diurno. Instale a wallbox com temporizador e carregue entre 10h e 15h, quando o sol está forte. Nesse cenário, cada kWh que o carro puxa sai direto do painel — zero Fio B, zero perda. É o melhor retorno por kWp que existe hoje no residencial brasileiro.
Se o solar já está instalado e curto, faça as contas antes de mandar ampliar. Eu não recomendaria superdimensionar “por garantia” — o retorno marginal de cada kWp extra cai conforme você passa do que consome, e detalhei isso em vale a pena superdimensionar o sistema. Dimensione pro consumo real do carro mais uma folga de 10%, não mais que isso.
E se você roda pouco — digamos, menos de 600 km/mês — talvez nem precise mexer no sistema. Um sistema bem dimensionado para a casa costuma ter folga de geração no verão que absorve uma recarga leve. Confira sua geração média mensal antes de gastar.
O que muda mesmo o jogo financeiro é o horário. Carro carregado de dia com solar próprio custa quase nada. Carregado de madrugada, mesmo com créditos, você paga os 60% do Fio B sobre tudo que injetou de dia — e o payback da ampliação estica. Se quiser entender como esse retorno se forma na prática, vale ver como calcular o payback solar sem cair nos erros comuns.
FAQ
Posso usar os créditos de energia da casa pra carregar o carro? Pode — o medidor não separa “energia da casa” de “energia do carro”. Tudo é consumo da mesma unidade. Mas créditos gerados de dia e usados de madrugada passam pela cobrança do Fio B (60% em 2026, subindo até 2028 pela Lei 14.300/22). Por isso carregar de dia rende mais que usar crédito à noite.
A wallbox de 7 kW não vai sobrecarregar minha rede? Depende do seu padrão de entrada e do disjuntor geral. Uma wallbox de 7,4 kW puxa cerca de 32 A — em muitas casas com padrão monofásico isso exige reforço. Isso é projeto elétrico, não solar: peça avaliação do padrão de entrada ao instalador antes de comprar a estação.
Quanto custa de luz carregar o carro se eu NÃO tiver solar? Pelo exemplo de 180 kWh/mês a uma tarifa B1 de R$ 0,85/kWh, dá cerca de R$ 153/mês — equivalente a abastecer um carro a combustível que faz uns 12 km/l rodando os mesmos 1.200 km. É o que torna a ampliação do solar atraente: você troca esse custo fixo mensal por painéis que se pagam.
Fontes
- CRESESB/CEPEL — Banco de dados SunData (HSP por localidade): cresesb.cepel.br
- INMETRO — Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (consumo de elétricos): gov.br/inmetro
- ANEEL — Lei 14.300/2022 e cobrança progressiva do Fio B: gov.br/aneel
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


