Inversor solar esquentando demais: o que é derating térmico e quanto ele rouba da sua geração
Quando o inversor atinge 60–70 °C, ele reduz a potência automaticamente para se proteger. Eng. Marcela Vargas mostra como calcular a perda real por derating, onde instalar o equipamento e quando o calor indica defeito.
Em fevereiro deste ano, um sistema de 8 kWp em Cuiabá (MT) registrava fator de desempenho (PR) de apenas 67% — bem abaixo dos 80% esperados. Módulos limpos, sem sombra, inversor novo. O monitoramento mostrava que entre 11h e 15h a potência caia consistentemente para 70% da nominal. A causa: o inversor estava instalado numa parede de alvenaria voltada para o oeste, com exposição direta ao sol da tarde. A temperatura da carcaça chegava a 74 °C. O inversor estava funcionando exatamente como projetado — e roubando silenciosamente R$ 780/ano em geração.
O que é derating térmico e por que o inversor faz isso
Todo inversor solar tem componentes de potência — IGBTs, MOSFETs, capacitores — que geram calor durante a conversão DC→CA. Acima de uma temperatura-limite (varia por modelo, mas geralmente entre 45 °C e 55 °C na temperatura ambiente do gabinete), o inversor reduz automaticamente a potência para evitar dano aos componentes.
Esse mecanismo tem nome técnico: derating térmico (ou power derating). Não é defeito. É proteção. O problema é que ele ocorre justamente no horário de pico solar — das 10h às 14h, quando o sol é mais forte e o ar é mais quente — criando uma contradição cruel: quanto mais sol, mais o inversor limita a conversão.
A curva de derating varia por fabricante, mas um padrão comum nos modelos de mercado médio (Growatt, Deye, GoodWe):
| Temperatura do gabinete | Potência disponível |
|---|---|
| Até 45 °C | 100% |
| 50 °C | ~95% |
| 55 °C | ~88% |
| 60 °C | ~78% |
| 65 °C | ~65% |
| 70 °C | ~50% |
Esses números são ilustrativos — cada fabricante tem sua curva. Mas o padrão é universal: 10 °C acima da faixa segura podem custar 20 a 35% da potência no pico solar.
Onde você não deveria instalar o inversor (e onde deveria)
O manual de qualquer inversor residencial proíbe explicitamente a instalação em locais com:
- Exposição direta à luz solar
- Temperatura ambiente acima de 40–45 °C
- Circulação de ar insuficiente (armários fechados, caixas de madeira improvisadas)
- Superfície que retém calor (parede de metal ou parede voltada para oeste em Cuiabá)
Na prática do mercado brasileiro, integradores frequentemente instalam o inversor na parede mais próxima do quadro elétrico por conveniência de cabeamento — ignorando a orientação e a exposição solar da parede.
O local ideal tem três propriedades:
- Temperatura ambiente nunca supera 35 °C (dentro de casa, em área ventilada, é o mais seguro)
- Distância mínima de 30 cm em volta dos dissipadores para circulação de ar (verifique a especificação do seu modelo — alguns pedem 50 cm)
- Sem incidência solar direta — mesmo luz difusa no verão aquece a carcaça
Para instalações em área de serviço externa, considere uma cobertura que bloqueie o sol mas permita circulação de ar. Nunca tampe o inversor em caixa fechada: isso é trocar superaquecimento por superclaustrofobia térmica.
Como calcular a perda anual por derating no seu caso
Preciso de dois números: a temperatura máxima real da carcaça e a curva de derating do seu modelo.
Passo 1: Verifique a temperatura da carcaça no pico solar. Qualquer câmera de celular com modo térmico (ou um termômetro de infravermelho, R$ 60 em ferragem) resolve. Meça entre 12h e 13h em dia claro no verão.
Passo 2: Consulte o manual do seu inversor — seção “Derating” ou “Thermal derating curve”. Se não encontrar, use a curva genérica como referência.
Passo 3: Estime as horas diárias de derating. Em Cuiabá, o período de temperatura de risco (ambiente > 35 °C) dura em média 5 horas por dia de outubro a março. Em Curitiba, esse risco é muito menor — 1 a 2 horas por dia nos meses mais quentes.
Passo 4: Calcule a energia perdida. Exemplo para Cuiabá com inversor de 6 kWp com derating de 25% por 4 horas/dia em 6 meses:
- Energia perdida/dia = 6 kW × 25% × 4h = 6 kWh/dia
- Energia perdida/semestre = 6 × 180 dias = 1.080 kWh
- Valor à tarifa B1 CEMAT (R$ 0,82/kWh, julho/2026) = R$ 885/semestre
Esse é o tamanho do problema. Não é desprezível.
Para referência sobre como a tarifa regional afeta todos os cálculos de eficiência, veja como o coeficiente de temperatura do módulo afeta a geração no calor brasileiro.
As soluções, ordenadas por custo e impacto
1. Reposicionar o inversor (custo: R$ 200–500 em mão de obra + cabo extra)
Se o problema é a localização, mover o inversor para dentro de casa — lavanderia, área de serviço coberta com ventilação — resolve na maioria dos casos. O custo de extensão de cabo CA (do inversor ao quadro) é bem menor que a geração perdida ao longo de anos.
2. Instalar uma cobertura com ventilação (custo: R$ 80–200)
Para quem não pode mover o inversor, uma telha de fibrocimento ou aço galvanizado instalada a 40–50 cm acima do inversor (como uma marquise) bloqueia a radiação direta sem prejudicar a ventilação. Reduz a temperatura da carcaça em 8 a 15 °C na minha experiência de campo.
3. Adicionar ventilação forçada (custo: R$ 150–400)
Em ambientes fechados inevitáveis, um cooler de 12V com termostato (liga acima de 40 °C, desliga abaixo) mantém o fluxo de ar. Consome menos de 15 Wh/dia — irrelevante no balanço do sistema.
4. Upgrade de inversor com melhor tolerância térmica (custo: alto)
Algumas marcas premium (Fronius, SMA, Sungrow série residencial) têm curvas de derating mais suaves — começam a limitar só acima de 55–60 °C e perdem menos por grau adicional. Se o inversor está no fim da vida útil, vale comparar a curva de derating antes de trocar.
Quando o calor indica defeito real
O derating é proteção. Mas alguns sinais indicam problema além do calor ambiente:
- Alarme de temperatura sem calor ambiente alto: inversor a 28 °C de ambiente disparando alarme térmico indica ventilador interno com defeito ou dissipador entupido de pó/inseto
- Temperatura assimétrica entre fases: em inversores trifásicos, se um lado esquenta muito mais que o outro, pode ser IGBT ou capacitor defeituoso
- Desligamento por temperatura + código de erro: diferente do derating gradual, o desligamento abrupto com código F32/F33 (varia por marca) indica falha de componente
Para diagnóstico desses casos, acesse o histórico de alarmes pelo app do inversor — a maioria dos modelos atuais (Growatt ShinePhone, GoodWe SEMS, Deye Smart) guarda o log por pelo menos 12 meses. Compare os horários de derating com a temperatura ambiente registrada para separar derating normal de falha real.
O padrão a buscar no monitoramento: se a geração cai abruptamente (cliff vertical no gráfico de potência) e não coincide com nuvem ou sombra, é derating ou desligamento. Se a queda é gradual ao longo do horário mais quente, é derating por temperatura ambiente — resolvível com posicionamento.
Para entender todos os indicadores que o app do inversor mostra, veja o guia de como saber se o inversor solar está funcionando bem.
Fontes
- Growatt — Manual do Usuário MIN 2500-6000TL-XH, seção 4.2 Thermal Derating Curve, revisão 2024. Disponível em: https://www.ginverter.com, consultado em julho/2026.
- GoodWe — SDT-G2 Series Installation Manual, Appendix B Operating Temperature, 2023. Disponível em: https://www.goodwe.com, consultado em julho/2026.
- INMET — Normais Climatológicas do Brasil 1991–2020, Temperatura Máxima Mensal por Capital. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br, consultado em julho/2026.
- ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos gerais. Disponível em: https://www.abntcatalogo.com.br, consultado em julho/2026.
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


