Granizo e módulo solar: o que o certificado IEC 61215 garante de verdade (e o que não garante)
A maioria dos datasheets diz "aprovado IEC 61215". Mas o teste padrão usa bola de gelo de 25 mm. Uma granizada de 35 mm em Curitiba ou no RS tem um impacto completamente diferente. Entenda o que o certificado cobre e o que fazer se você mora em zona de granizo frequente.
Em novembro de 2023, uma fazenda de soja no Paraná perdeu 14 módulos solares numa granizada que durou menos de oito minutos. O sistema tinha apenas dois anos, módulos com garantia de 25 anos e datasheet ostentando “IEC 61215 — aprovado”. Quando o proprietário acionou a garantia, a fabricante negou: o laudo de perito identificou impacto acima do parâmetro certificado. O certificado não cobria aquele granizo. Ele não sabia que existia um parâmetro, muito menos o que era.
A versão de 30 segundos
O certificado IEC 61215 inclui um teste de granizo que usa bolinhas de gelo de 25 mm de diâmetro lançadas a 23 m/s (83 km/h). Quem passa não quebra o vidro nessas condições. O problema: granizo real no Sul do Brasil, Triângulo Mineiro e partes do Centro-Oeste costuma ter pedras de 30 a 50 mm em eventos severos. Para esse cenário, a IEC tem um padrão complementar — a IEC TS 63397 — que testa até 45 mm. Poucos fabricantes fazem esse teste adicional. Menos ainda informam no orçamento residencial.
Conceito 1: o que o teste IEC 61215 realmente mede
A IEC 61215 é a norma principal de qualificação de módulos fotovoltaicos. Ela existe desde os anos 1990 e passou por revisões substanciais em 2016 e 2021. No que diz respeito ao granizo, o procedimento é o seguinte:
11 impactos por módulo. Um projétil de gelo esférico de exatamente 25 mm de diâmetro (o equivalente a uma azeitona grande) é lançado contra o módulo a 23 m/s. Os pontos de impacto são predefinidos: centro, meio das bordas, quinas e cruzamentos de células. O módulo é avaliado depois: sem fratura no vidro, sem delaminação visível, e a diferença de potência máxima não pode ser maior que 5%.
O que esse teste garante: que o módulo sobrevive a uma granizada de intensidade moderada sem quebrar o vidro ou perder desempenho significativo. O que ele não garece: que o módulo vai aguentar granizo de 35 mm, granizo de 25 mm mas denso e repetido por 30 minutos, ou granizo acumulado sobre carga de neve.
Na prática, o teste é passado por praticamente todo módulo comercializado no Brasil — inclusive os mais baratos. O certificado IEC 61215 virou linha de base, não diferencial. Quando um vendedor usa “IEC 61215” como argumento de qualidade contra granizo, ele está te vendendo o mínimo aceito no mercado como se fosse extra.
Conceito 2: onde o granizo brasileiro fica acima do certificado padrão
Aqui está o ponto que a maioria dos posts de solar no Brasil omite por completo.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Cemaden monitoram eventos de granizo no País desde 2011. Os estados com maior frequência e tamanho de pedra são, em ordem decrescente: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Eventos com granizo acima de 30 mm são reportados múltiplas vezes por ano nessas regiões — e eventos com pedras de 40 a 55 mm, embora menos frequentes, estão bem documentados.
O teste padrão usa 25 mm. Um granizo de 35 mm tem energia cinética quase o dobro de um de 25 mm (a energia escala com o cubo do diâmetro para mesma velocidade). Isso explica por que a IEC criou a IEC TS 63397:2021 — especificação técnica que define classes de resistência ao granizo de maior tamanho:
| Classe | Diâmetro do projétil | Velocidade de impacto |
|---|---|---|
| HW1 (padrão IEC 61215) | 25 mm | 23 m/s |
| HW2 | 35 mm | 27,3 m/s |
| HW3 | 45 mm | 30,7 m/s |
Se você mora no Sul ou em áreas de convecção severa do Centro-Oeste, o mínimo que eu recomendaria pedir ao instalador é módulo com teste HW2 ou HW3 documentado. Não o certificado de pátio, a documentação completa do ensaio.
Conceito 3: o vidro faz mais diferença do que a marca
Quando o vidro quebra num módulo solar, a pergunta certa é raramente “qual marca é” — é “qual espessura e qual tratamento o vidro tem”.
A tendência de mercado nos últimos três anos foi de redução de custo pela diminuição da espessura do vidro frontal: de 3,2 mm para 2,8 mm e, nos módulos mais baratos da Ásia, até 2,0 mm. Isso já foi documentado no trabalho de vidro fino e quebra espontânea em módulos modernos, onde o scorecard da Kiwa PVEL mostrou ruptura em 1 a cada 3 módulos testados. Granizo agrava esse problema: vidro de 2,0 mm passa no teste de 25 mm porque o projétil não é grande o suficiente — mas uma pedra real de 30 mm o quebra.
O que checar antes de fechar orçamento:
- Espessura do vidro frontal: peça o datasheet completo, não a ficha resumida. Procure “front glass” ou “vidro frontal” — deve ser 3,2 mm em módulo residencial de qualidade.
- Vidro temperado ou recozido: temperado é padrão hoje, mas módulos de descarte de fábrica ou cópias paralelas às vezes chegam com vidro recozido — fratura em estilhaços maiores e irregulares em vez de em pedacinhos seguros.
- Módulo dual glass (vidro-vidro): a cobertura traseira de vidro, em vez de backsheet plástico, distribui melhor o impacto. Isso não aumenta a resistência do vidro frontal, mas reduz delaminação e microfissuras por flexão mecânica após impacto. Se você está em zona de granizo severo e tem telhado plano ou baixa inclinação (onde o granizo cai quase vertical e acumula), dual glass é um diferencial real.
Para entender quando o dual glass realmente compensa no seu sistema, veja a análise completa de módulo dual glass vs vidro-backsheet e quando cada um vale.
Onde a garantia falha quando o granizo é grande
Este é o ponto que o proprietário paranaense descobriu da pior forma.
A garantia de produto (workmanship warranty) do módulo cobre defeitos de fabricação. A maioria das fabricantes define “evento climático extremo” como excludente de cobertura — e granizo acima do parâmetro IEC 61215 (25 mm) está nessa categoria. Isso significa que, se a perícia identificar que o granizo foi de 30 mm ou mais, a fabricante pode negar sem violar os termos do contrato.
A garantia de produção (performance warranty) igualmente não cobre módulo que quebrou fisicamente. Se o vidro trinca, a garantia de 80% da potência em 25 anos não serve de nada: o módulo parou de funcionar, não degradou progressivamente.
O caminho correto para quem está em região de granizo severo é duplo:
- Equipamento com teste HW2 ou HW3 documentado — o módulo pode sobreviver ao evento sem dano ou com dano mínimo.
- Seguro patrimonial com cláusula “danos por granizo” explícita — porque mesmo um módulo certificado HW3 pode ser destruído por granizo de 50 mm. Seguro cobre o que o certificado não promete. As pegadinhas da cobertura de seguro para sistemas solares, incluindo a questão do granizo, estão no detalhe.
Sobre como a garantia de produção funciona na prática (e o que ela não garante), vale ler o guia de garantia de produção linear vs escalonada e o que o datasheet esconde.
Onde a IEC TS 63397 ainda falha
A norma complementar também tem limitações que pouca gente comenta:
- O ensaio é feito com módulo seco e estático. Na prática, granizo grande vem com vento forte — o impacto chega em ângulo, não perpendicular. A norma não testa isso.
- Testam-se 11 pontos, mas uma granizada real distribui centenas de impactos no módulo. Um módulo que sobrevive a 11 disparos a 27,3 m/s pode trincar com o 200º impacto consecutivo a 20 m/s.
- O teste é em módulo novo. Um módulo com cinco anos de campo tem microfissuras de fadiga térmica e mecânica — é mais suscetível a impacto do que quando saiu da fábrica.
Dito isso, o HW2 e o HW3 ainda são o melhor proxy disponível de resistência a granizo severo. Não é perfeito. É o menos imperfeito que existe documentado.
Checklist para quem está em zona de granizo
Se você está no Sul, sul de MG ou MS e está orçando um sistema solar agora:
- Peça o datasheet completo (não o resumo de uma página) e confirme “front glass thickness ≥ 3,2 mm”.
- Pergunte ao integrador se o módulo tem certificação HW2 ou HW3 (IEC TS 63397). Se ele não souber o que é, troque de integrador ou leve os documentos da fabricante direto.
- Peça laudo de ensaio, não só o certificado impresso — o laudo mostra qual tamanho de projétil foi testado.
- Considere módulo dual glass se o telhado tem inclinação abaixo de 15° (granizo cai quase vertical, acumula mais).
- Consulte sua seguradora antes de fechar o sistema, não depois. O seguro precisa saber a especificação dos módulos para confirmar cobertura.
Fontes
- IEC 61215-1:2021 — Terrestrial photovoltaic (PV) modules — Design qualification and type approval. https://webstore.iec.ch/en/publication/61000
- IEC TS 63397:2021 — Photovoltaic (PV) modules — Test procedures for the assessment of hail impact resistance. https://webstore.iec.ch/en/publication/67843
- INMET — Boletim de Monitoramento de Eventos Climáticos Extremos (granizo, 2011-2023). https://www.inmet.gov.br
- Kiwa PVEL — PV Module Reliability Scorecard 2025. https://www.pvel.com/scorecard
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


