segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Granizo e módulo solar: o que o certificado IEC 61215 garante de verdade (e o que não garante)

A maioria dos datasheets diz "aprovado IEC 61215". Mas o teste padrão usa bola de gelo de 25 mm. Uma granizada de 35 mm em Curitiba ou no RS tem um impacto completamente diferente. Entenda o que o certificado cobre e o que fazer se você mora em zona de granizo frequente.

Eng. Marcela Vargas 8 min de leitura
Módulos solares fotovoltaicos cobertos de granizo após tempestade, mostrando superfície de vidro intacta e estrutura molhada
Módulos solares fotovoltaicos cobertos de granizo após tempestade, mostrando superfície de vidro intacta e estrutura molhada

Em novembro de 2023, uma fazenda de soja no Paraná perdeu 14 módulos solares numa granizada que durou menos de oito minutos. O sistema tinha apenas dois anos, módulos com garantia de 25 anos e datasheet ostentando “IEC 61215 — aprovado”. Quando o proprietário acionou a garantia, a fabricante negou: o laudo de perito identificou impacto acima do parâmetro certificado. O certificado não cobria aquele granizo. Ele não sabia que existia um parâmetro, muito menos o que era.

A versão de 30 segundos

O certificado IEC 61215 inclui um teste de granizo que usa bolinhas de gelo de 25 mm de diâmetro lançadas a 23 m/s (83 km/h). Quem passa não quebra o vidro nessas condições. O problema: granizo real no Sul do Brasil, Triângulo Mineiro e partes do Centro-Oeste costuma ter pedras de 30 a 50 mm em eventos severos. Para esse cenário, a IEC tem um padrão complementar — a IEC TS 63397 — que testa até 45 mm. Poucos fabricantes fazem esse teste adicional. Menos ainda informam no orçamento residencial.

Conceito 1: o que o teste IEC 61215 realmente mede

A IEC 61215 é a norma principal de qualificação de módulos fotovoltaicos. Ela existe desde os anos 1990 e passou por revisões substanciais em 2016 e 2021. No que diz respeito ao granizo, o procedimento é o seguinte:

11 impactos por módulo. Um projétil de gelo esférico de exatamente 25 mm de diâmetro (o equivalente a uma azeitona grande) é lançado contra o módulo a 23 m/s. Os pontos de impacto são predefinidos: centro, meio das bordas, quinas e cruzamentos de células. O módulo é avaliado depois: sem fratura no vidro, sem delaminação visível, e a diferença de potência máxima não pode ser maior que 5%.

O que esse teste garante: que o módulo sobrevive a uma granizada de intensidade moderada sem quebrar o vidro ou perder desempenho significativo. O que ele não garece: que o módulo vai aguentar granizo de 35 mm, granizo de 25 mm mas denso e repetido por 30 minutos, ou granizo acumulado sobre carga de neve.

Na prática, o teste é passado por praticamente todo módulo comercializado no Brasil — inclusive os mais baratos. O certificado IEC 61215 virou linha de base, não diferencial. Quando um vendedor usa “IEC 61215” como argumento de qualidade contra granizo, ele está te vendendo o mínimo aceito no mercado como se fosse extra.

Conceito 2: onde o granizo brasileiro fica acima do certificado padrão

Aqui está o ponto que a maioria dos posts de solar no Brasil omite por completo.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Cemaden monitoram eventos de granizo no País desde 2011. Os estados com maior frequência e tamanho de pedra são, em ordem decrescente: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, sul de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Eventos com granizo acima de 30 mm são reportados múltiplas vezes por ano nessas regiões — e eventos com pedras de 40 a 55 mm, embora menos frequentes, estão bem documentados.

O teste padrão usa 25 mm. Um granizo de 35 mm tem energia cinética quase o dobro de um de 25 mm (a energia escala com o cubo do diâmetro para mesma velocidade). Isso explica por que a IEC criou a IEC TS 63397:2021 — especificação técnica que define classes de resistência ao granizo de maior tamanho:

ClasseDiâmetro do projétilVelocidade de impacto
HW1 (padrão IEC 61215)25 mm23 m/s
HW235 mm27,3 m/s
HW345 mm30,7 m/s

Se você mora no Sul ou em áreas de convecção severa do Centro-Oeste, o mínimo que eu recomendaria pedir ao instalador é módulo com teste HW2 ou HW3 documentado. Não o certificado de pátio, a documentação completa do ensaio.

Conceito 3: o vidro faz mais diferença do que a marca

Quando o vidro quebra num módulo solar, a pergunta certa é raramente “qual marca é” — é “qual espessura e qual tratamento o vidro tem”.

A tendência de mercado nos últimos três anos foi de redução de custo pela diminuição da espessura do vidro frontal: de 3,2 mm para 2,8 mm e, nos módulos mais baratos da Ásia, até 2,0 mm. Isso já foi documentado no trabalho de vidro fino e quebra espontânea em módulos modernos, onde o scorecard da Kiwa PVEL mostrou ruptura em 1 a cada 3 módulos testados. Granizo agrava esse problema: vidro de 2,0 mm passa no teste de 25 mm porque o projétil não é grande o suficiente — mas uma pedra real de 30 mm o quebra.

O que checar antes de fechar orçamento:

  • Espessura do vidro frontal: peça o datasheet completo, não a ficha resumida. Procure “front glass” ou “vidro frontal” — deve ser 3,2 mm em módulo residencial de qualidade.
  • Vidro temperado ou recozido: temperado é padrão hoje, mas módulos de descarte de fábrica ou cópias paralelas às vezes chegam com vidro recozido — fratura em estilhaços maiores e irregulares em vez de em pedacinhos seguros.
  • Módulo dual glass (vidro-vidro): a cobertura traseira de vidro, em vez de backsheet plástico, distribui melhor o impacto. Isso não aumenta a resistência do vidro frontal, mas reduz delaminação e microfissuras por flexão mecânica após impacto. Se você está em zona de granizo severo e tem telhado plano ou baixa inclinação (onde o granizo cai quase vertical e acumula), dual glass é um diferencial real.

Para entender quando o dual glass realmente compensa no seu sistema, veja a análise completa de módulo dual glass vs vidro-backsheet e quando cada um vale.

Onde a garantia falha quando o granizo é grande

Este é o ponto que o proprietário paranaense descobriu da pior forma.

A garantia de produto (workmanship warranty) do módulo cobre defeitos de fabricação. A maioria das fabricantes define “evento climático extremo” como excludente de cobertura — e granizo acima do parâmetro IEC 61215 (25 mm) está nessa categoria. Isso significa que, se a perícia identificar que o granizo foi de 30 mm ou mais, a fabricante pode negar sem violar os termos do contrato.

A garantia de produção (performance warranty) igualmente não cobre módulo que quebrou fisicamente. Se o vidro trinca, a garantia de 80% da potência em 25 anos não serve de nada: o módulo parou de funcionar, não degradou progressivamente.

O caminho correto para quem está em região de granizo severo é duplo:

  1. Equipamento com teste HW2 ou HW3 documentado — o módulo pode sobreviver ao evento sem dano ou com dano mínimo.
  2. Seguro patrimonial com cláusula “danos por granizo” explícita — porque mesmo um módulo certificado HW3 pode ser destruído por granizo de 50 mm. Seguro cobre o que o certificado não promete. As pegadinhas da cobertura de seguro para sistemas solares, incluindo a questão do granizo, estão no detalhe.

Sobre como a garantia de produção funciona na prática (e o que ela não garante), vale ler o guia de garantia de produção linear vs escalonada e o que o datasheet esconde.

Onde a IEC TS 63397 ainda falha

A norma complementar também tem limitações que pouca gente comenta:

  • O ensaio é feito com módulo seco e estático. Na prática, granizo grande vem com vento forte — o impacto chega em ângulo, não perpendicular. A norma não testa isso.
  • Testam-se 11 pontos, mas uma granizada real distribui centenas de impactos no módulo. Um módulo que sobrevive a 11 disparos a 27,3 m/s pode trincar com o 200º impacto consecutivo a 20 m/s.
  • O teste é em módulo novo. Um módulo com cinco anos de campo tem microfissuras de fadiga térmica e mecânica — é mais suscetível a impacto do que quando saiu da fábrica.

Dito isso, o HW2 e o HW3 ainda são o melhor proxy disponível de resistência a granizo severo. Não é perfeito. É o menos imperfeito que existe documentado.

Checklist para quem está em zona de granizo

Se você está no Sul, sul de MG ou MS e está orçando um sistema solar agora:

  1. Peça o datasheet completo (não o resumo de uma página) e confirme “front glass thickness ≥ 3,2 mm”.
  2. Pergunte ao integrador se o módulo tem certificação HW2 ou HW3 (IEC TS 63397). Se ele não souber o que é, troque de integrador ou leve os documentos da fabricante direto.
  3. Peça laudo de ensaio, não só o certificado impresso — o laudo mostra qual tamanho de projétil foi testado.
  4. Considere módulo dual glass se o telhado tem inclinação abaixo de 15° (granizo cai quase vertical, acumula mais).
  5. Consulte sua seguradora antes de fechar o sistema, não depois. O seguro precisa saber a especificação dos módulos para confirmar cobertura.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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