segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Corrente de partida: por que o inversor off-grid desliga quando a geladeira liga

A geladeira e a bomba puxam de 3 a 7 vezes a potência nominal no instante em que ligam. Entenda a corrente de partida (inrush) e como dimensionar o inversor off-grid pra não desligar no susto.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Inversor off-grid e banco de baterias instalados em casa rural isolada da rede elétrica
Inversor off-grid e banco de baterias instalados em casa rural isolada da rede elétrica

O cliente me ligou irritado: o inversor novo, de 3.000 W, “não aguentava nem uma geladeira de 150 W”. Toda vez que o motor do freezer ligava, o inversor apitava, mostrava “overload” e desligava por alguns segundos. Ele tinha certeza de que o equipamento veio com defeito. Não veio. O problema era um número que não estava no manual de venda, mas estava no datasheet: a corrente de partida.

A potência que um motor pede pra girar não é a mesma que ele pede pra começar a girar. E é nesse instante — meio segundo, às vezes menos — que sistemas off-grid mal dimensionados desligam, piscam a luz ou queimam fusível. Quem vem da rede da concessionária nunca percebe isso, porque a rede tem fôlego de sobra. O off-grid, não.

A versão de 30 segundos

Cargas com motor (geladeira, freezer, bomba d’água, máquina de lavar, ar-condicionado, furadeira) puxam de 3 a 7 vezes a potência nominal no instante em que ligam. Esse pico dura frações de segundo, mas o inversor precisa entregá-lo sem desligar.

Inversores têm dois números de potência: nominal (o que ele entrega o dia todo) e pico/surto (o que ele entrega por 1 a 5 segundos). Você dimensiona pela carga contínua, mas valida pela soma dos picos de partida das cargas que podem ligar juntas. Se o pico estoura o surto do inversor, ele desliga — mesmo com a casa “vazia”.

Agora os três conceitos que fazem essa conta fechar.

Conceito 1 — Por que motor puxa tanto na partida

Um motor parado é, eletricamente, quase um curto-circuito. Ele só limita a própria corrente depois que começa a girar e gera a chamada força contra-eletromotriz. No primeiro instante, sem essa “frenagem” interna, ele engole tudo que a fonte conseguir entregar.

A regra de campo que uso há anos:

  • Geladeira / freezer comum (compressor convencional): pico de 3 a 5× a nominal. Uma geladeira de 150 W chega a puxar 600 a 750 W na partida.
  • Bomba d’água monofásica (poço, cacimba): pico de 4 a 7×. Uma bomba de 1/2 cv (≈ 370 W) pode pedir mais de 2.000 W por meio segundo.
  • Ar-condicionado convencional (sem inverter): pico de 3 a 5× no compressor.
  • Máquina de lavar: pico no motor + resistência se for com aquecimento.

A Victron, fabricante referência em off-grid, documenta que motores de indução podem exigir corrente de partida de 3 a 8 vezes a nominal e que o inversor precisa suportar esse surto sem entrar em proteção (Victron Energy).

O detalhe que muda tudo: equipamentos com tecnologia inverter (geladeira inverter, ar-condicionado inverter, bomba com soft-start) praticamente eliminam o pico — eles partem suave. Trocar um freezer velho por um inverter às vezes resolve mais barato do que trocar o inversor inteiro.

Conceito 2 — Os dois números do inversor que você precisa olhar

Quase todo inversor off-grid de qualidade declara duas potências. O vendedor fala da primeira; a que importa pra motor é a segunda.

EspecificaçãoO que significaExemplo (inversor de 3.000 W)
Potência nominal/contínuaO que entrega indefinidamente3.000 W
Potência de pico/surtoO que entrega por 1–5 segundos6.000 W (2×)

Inversores baratos costumam ter surto de a nominal por uns 2 segundos. Inversores de linha senoidal pura boa (Victron, Growatt, Deye, Epever) entregam 2× a 3× por mais tempo, e alguns toroidais aguentam picos altíssimos por meio segundo. Esse fôlego é exatamente o que separa um inversor que “engole” a partida da bomba de um que apita e desliga.

Por isso bato tanto na onda senoidal pura pra carga com motor: a onda modificada, além de aquecer o motor, costuma vir em inversores com surto fraco. Já detalhei essa diferença em onda pura vs onda modificada no off-grid — pra motor, não tem conversa.

Conceito 3 — Como somar os picos (a conta que ninguém faz)

Aqui está o erro do cliente da história. Ele dimensionou pela soma das cargas nominais — geladeira + lâmpadas + TV = uns 400 W, “folga gigante pra um inversor de 3.000 W”. Mas esqueceu de perguntar: e quando algo liga enquanto outra coisa já está rodando?

A conta certa é assim:

  1. Liste as cargas que podem estar ligadas ao mesmo tempo.
  2. Para cada uma, use a potência nominal (regime).
  3. Escolha a maior carga com motor e troque a nominal dela pelo pico de partida.
  4. Some tudo. Esse é o pior caso instantâneo.

Exemplo prático — sítio com geladeira (150 W nominal, pico 700 W), bomba de 1/2 cv (370 W nominal, pico 2.200 W), 4 lâmpadas LED (40 W), TV (90 W):

  • Regime contínuo: 150 + 370 + 40 + 90 = 650 W → qualquer inversor de 1.500 W cobre.
  • Pior caso (bomba partindo com geladeira e TV ligadas): 2.200 (pico bomba) + 150 + 40 + 90 = 2.480 W instantâneos.

Um inversor de 1.500 W com surto de 2× (3.000 W) cobre esse pior caso. Um de 1.000 W com surto fraco, não. Repare: a carga contínua nunca passou de 650 W, mas o inversor precisa de fôlego pra 2.480 W. É por isso que dimensionar só pela média derruba o sistema.

A regra que aplico no projeto: dimensione o inversor com margem de 20–30% sobre a carga contínua e confirme que o surto cobre o maior pico de partida somado às cargas já ligadas. Se a bomba é a vilã, a saída barata costuma ser um soft-starter nela, que corta o pico pela metade — mais barato que subir um degrau de inversor.

Onde isso falha (limitações)

Os números de “3 a 7×” são faixa de engenharia, não lei. O pico real depende de cada equipamento: marca, idade do compressor, se a bomba está afogada ou seca, temperatura. Datasheet de geladeira raramente publica o pico — você só descobre medindo com alicate amperímetro de pico (peak hold) ou perguntando ao fabricante.

Outra armadilha: o surto do inversor cai com a temperatura e com a tensão baixa do banco. Em fim de tarde, banco quase descarregado e inversor quente, aquele “2× por 5 s” do datasheet pode virar 2× por 1 s. Por isso eu projeto com folga, não no limite.

E há o lado da bateria: um pico de 2.480 W em banco de 24 V puxa mais de 100 A instantâneos. Se o cabo CC, o fusível ou o BMS estiverem subdimensionados, o pico cai por queda de tensão antes de chegar ao motor — e o inversor desliga por subtensão, não por sobrecarga. Já tratei dessa proteção CC em fusível e disjuntor do banco de bateria off-grid, e o caso específico de bomba em bomba d’água solar sem bateria. Antes de fechar qualquer compra, vale rever o dimensionamento off-grid passo a passo inteiro — a partida é só uma das contas.

No fim, o cliente da geladeira não trocou o inversor de 3.000 W. O problema dele era outro: cabo CC fino demais do banco até o inversor, derrubando a tensão no pico. Trocamos o cabo, o “defeito” sumiu. Corrente de partida quase sempre é conta — raramente é defeito.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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