segunda-feira, 6 de julho de 2026
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DPS off-grid: todo mundo instala, quase ninguém dimensiona certo — e o raio prova isso

Dispositivo de proteção contra surto em sistema off-grid não é o mesmo que no on-grid. A tensão de operação do banco, o comprimento dos cabos e a ausência de neutro mudam tudo. Guia técnico com cálculo do nível de proteção Up e onde cada DPS entra no diagrama.

Eng. Marcela Vargas 7 min de leitura
Dispositivo de proteção contra surtos instalado em quadro elétrico de sistema solar off-grid isolado com painel e baterias ao fundo
Dispositivo de proteção contra surtos instalado em quadro elétrico de sistema solar off-grid isolado com painel e baterias ao fundo

Um sítio no Triângulo Mineiro perdeu inversor, MPPT e o BMS de um banco de LFP importado num único evento: uma descarga atmosférica a cerca de 300 metros da instalação. Não caiu raio no telhado. Não havia fumaça. O sistema simplesmente parou. O proprietário me mostrou a fatura de reposição: R$ 18.400 em equipamentos, mais R$ 2.200 em mão de obra. Havia DPS instalado — um modelo tipo 2 de 40 kA comprado no elétrico da cidade. Estava no lugar errado, com nível de proteção Up errado, e sem aterramento funcional pra onde descarregar.

DPS mal dimensionado é pior que nenhum DPS. Dá uma sensação de segurança que não existe.

A tese

Sistemas off-grid têm quatro diferenças críticas em relação ao on-grid que tornam o DPS de prateleira inadequado sem adaptação: tensão de operação do banco (não 220/380 V CA), ausência de neutro no lado CC, comprimento elevado dos cabos entre painel e controlador, e o fato de que o sistema inteiro depende de um único ponto de carga — o MPPT. Acertar o DPS num sistema off-grid exige entender essas quatro diferenças. A maioria dos instaladores não entende nenhuma.

Evidência 1 — O nível de proteção Up tem que respeitar a tensão do sistema

O nível de proteção Up (voltagem de clampeamento) é o parâmetro central de um DPS. É a tensão máxima que aparece nos terminais durante um evento de surto. Se o Up é 1.500 V e o seu inversor aguenta 1.200 V de tensão transitória, o DPS não protege nada — o pico passa inteiro para o equipamento.

No lado CC de um sistema off-grid, a tensão de operação do array depende do banco e da configuração série dos painéis. Num sistema de 48V com painéis de 550 Wp em tensão de circuito aberto de 51 V colocados em duas strings de 2 painéis em série, a Voc de array fica em torno de 102 V. O MPPT precisa de um DPS com Up bem abaixo do limite de tensão transitória do controlador.

O cálculo que faço em projeto:

Up_máx = V_límite_inversor / 1,2 (fator de segurança 20%)

Para um MPPT com suporte máximo a pico transitório de 800 V (especificação típica dos Victron SmartSolar MPPT de 150 V/100 A), o Up do DPS deve ser ≤ 667 V. Um DPS genérico com Up de 1.200 V — muito comum no mercado — não atende. Parece proteger. Não protege.

No lado CC bateria → inversor, a tensão é menor (48 V nominal), mas as correntes de curto-circuito do banco LFP podem ultrapassar 2.000 A. O DPS aqui precisa ser dimensionado para corrente de descarga de impulso (Iimp) compatível com a corrente de curto-circuito prospectiva do banco, não só com o pico de surto atmosférico.

Evidência 2 — A ausência de neutro muda o esquema de instalação

No sistema fotovoltaico on-grid conectado à rede, o DPS é instalado entre fase e neutro (ou fase, neutro e terra). A referência de terra está disponível e a tensão de operação é bem definida.

No off-grid, o lado CC não tem neutro. A tensão de barramento é assimétrica em relação ao terra — o ponto de referência do DPS varia conforme a configuração de aterramento do banco (polo positivo ou negativo aterrado, sistema flutuante ou com meio ponto aterrado em 48V).

A configuração mais segura para sistemas off-grid isolados no Brasil segue a orientação da ABNT NBR 16690:2019 seção 7: sistema não-aterrado (IT) no lado CC, com monitor de isolamento. O DPS vai entre cada polo (+ e -) e o condutor de proteção (PE), instalado o mais próximo possível do ponto de entrada do array no MPPT.

Isso exige dois DPS por string (um no + e um no -), não um — erro que vejo em 6 de cada 10 instalações off-grid que avalio em campo.

Para referência sobre aterramento correto no sistema isolado, incluindo o tratamento de potenciais flutuantes, veja o post sobre aterramento e SPDA em sistemas off-grid isolados.

Evidência 3 — O comprimento dos cabos determina onde o DPS vai

Há uma regra prática da IEC 62305-4 (proteção contra surtos de origem atmosférica) que poucos instaladores conhecem: quando o comprimento do cabo entre o DPS e o equipamento protegido supera 10 metros, a efetividade da proteção cai significativamente. O surto tem componente indutiva que o cabo longo amplifica — o pico que chega no equipamento pode ser maior do que o Up do DPS.

Em sistemas off-grid rurais, é comum ver o painel no telhado a 15 metros do MPPT, e o MPPT a 3 metros do banco de baterias. O DPS instalado no quadro junto ao MPPT está a 15 metros do ponto de entrada do surto — longe demais.

A solução correta: DPS na caixa de junção do array (próximo aos painéis, no lado CC de alta tensão) + DPS no quadro do MPPT/inversor (segundo estágio de proteção). Os dois precisam ser coordenados — o tipo 1 ou 2 no primeiro ponto, tipo 2 ou 3 no segundo, com limitação de energia progressiva.

Para entender a lógica de coordenação de DPS tipo 1 vs tipo 2 no sistema fotovoltaico (conceitos que se aplicam ao off-grid), o post de DPS solar: tipo 1 vs tipo 2, lado CC e CA traz os critérios detalhados.

O contra-argumento honesto

Instalar dois DPS por string em dois pontos do circuito aumenta o custo de material em R$ 800 a R$ 2.000 num sistema residencial de 4 a 8 kWp off-grid. Muitos instaladores vão dizer que “nunca tiveram problema” com o esquema mais simples. Isso pode ser verdade — se o índice ceráunico (número de dias de trovoada por ano) da região for baixo ou a instalação for em área urbana protegida por outros prédios.

O mapa do INPE de densidade de raios no Brasil mostra que Mato Grosso do Sul, Goiás, Triângulo Mineiro e Pará têm índices acima de 12 raios/km²/ano — regiões que concentram exatamente as instalações off-grid rurais mais comuns. Nessas áreas, o esquema simples é uma aposta. Já atendi três casos de perda total de equipamento por surto nesses estados nos últimos 18 meses.

Onde isso te leva: o checklist mínimo pra um DPS off-grid que funciona

  1. Calcule o Up máximo com base na tensão transitória suportada pelo MPPT (dado do datasheet) — nunca compre DPS com Up acima de 80% desse limite.
  2. Use dois DPS por string no lado CC — um no polo positivo, um no negativo, ambos com saída para PE.
  3. Instale no ponto de entrada do array (caixa de junção, próximo aos painéis) e no quadro do inversor/MPPT — dois estágios coordenados.
  4. Verifique o aterramento antes de ligar qualquer DPS — o protetor descarrega no PE, e se o PE não tem caminho para o terra físico, a energia vai para onde não deve. Sem aterramento funcional, o DPS vira um curto-circuito involuntário.
  5. Cheque os DPS a cada revisão semestral: o indicador de status (janela verde/vermelho ou LED) mostra se o varistor (MOV) foi saturado por um surto anterior. DPS que já atuou em surto forte precisa ser substituído — não recupera. O checklist completo de revisão semestral está em manutenção off-grid: o que checar a cada 6 meses.

Para a proteção do banco de baterias propriamente dita — fusíveis de alta corrente e disjuntores CC que complementam o DPS no lado do banco — veja o dimensionamento em proteção elétrica do banco de baterias off-grid.


Fontes

  • ABNT NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos gerais. Disponível em: https://www.abntcatalogo.com.br, consultado em julho/2026.
  • IEC 62305-4:2010 — Protection against lightning — Part 4: Electrical and electronic systems within structures. Disponível via ABNT, consultado em julho/2026.
  • INPE — Mapa de densidade de raios no Brasil (flashes/km²/ano). Disponível em: https://www.inpe.br/webelat/homepage, consultado em julho/2026.
  • Victron Energy — SmartSolar MPPT Data Sheet (tensão transitória máxima, série 150V/100A). Disponível em: https://www.victronenergy.com/solar-charge-controllers, consultado em julho/2026.
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Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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