segunda-feira, 6 de julho de 2026
Solar Brasil SOLAR BRASIL
Equipamentos

DPS solar: tipo 1 ou tipo 2, lado CC ou CA — como escolher sem errar em 2026

O DPS é o item mais barato do orçamento solar e o que mais some das propostas. Guia técnico com os 4 critérios pra escolher entre tipo 1 e tipo 2, lado CC e CA, e a tabela que mostra quando cada um é obrigatório.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Dispositivos de proteção contra surtos montados em trilho DIN dentro de quadro elétrico
Dispositivos de proteção contra surtos montados em trilho DIN dentro de quadro elétrico

Revisei um orçamento de 8 kWp semana passada em que o integrador detalhou marca de painel, modelo de inversor, bitola de cabo — e não tinha uma única linha sobre DPS. Perguntei. A resposta foi: “ah, isso já vem na string box”. Não vem necessariamente, e mesmo quando vem, quase ninguém checa se é tipo 1 ou tipo 2, nem se cobre os dois lados do inversor. É um componente de R$ 60 a R$ 300 que decide se um raio a 400 metros da sua casa vai custar a queima de um inversor de R$ 4 mil.

O que importa decidir antes de comprar

O DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos, ou SPD em inglês) desvia para o aterramento os picos de tensão causados por descargas atmosféricas diretas ou induzidas. No sistema solar você decide quatro coisas — e errar qualquer uma delas é jogar dinheiro fora ou deixar um flanco aberto.

  1. Tipo 1 ou tipo 2. O tipo 1 aguenta corrente de surto de descarga direta (forma de onda 10/350 µs) e só faz sentido onde existe SPDA (para-raios) na edificação ou risco alto de queda direta. O tipo 2 protege contra surtos induzidos (forma de onda 8/20 µs), que são a esmagadora maioria dos casos residenciais sem para-raios. Os dois critérios estão na ABNT NBR 16690, que rege as instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos (ABNT, NBR 16690:2019).

  2. Lado CC ou lado CA — ou os dois. O inversor tem entrada em corrente contínua (vinda dos módulos) e saída em corrente alternada (para o quadro da casa). Surto entra dos dois lados. DPS de CA é o de quadro comum; o de CC tem que ser específico para tensão fotovoltaica (existem modelos de até 1000 V e 1500 V CC), porque arco em corrente contínua não se apaga sozinho como em CA.

  3. A distância entre o DPS e o que ele protege. Acima de cerca de 10 metros de cabo entre o DPS e o inversor, a norma recomenda um segundo estágio de proteção mais perto do equipamento. Por isso é comum ver DPS na string box (perto dos módulos) e outro junto ao inversor.

  4. Tensão máxima de operação contínua (Uc). O DPS de CC precisa ter Uc acima da tensão de circuito aberto da string corrigida pela temperatura. Subdimensionar a Uc faz o DPS envelhecer rápido e, no limite, entrar em curto.

A tabela de decisão rápida

Montei isto a partir do que aplico em projeto residencial, cruzando os requisitos da NBR 16690 com a presença ou não de para-raios. É um ponto de partida, não substituto do laudo de risco.

Situação da edificaçãoLado CCLado CAObservação
Casa sem SPDA, área urbana, baixo risco de raioDPS tipo 2 (até 1000/1500 V CC)DPS tipo 2Cenário mais comum no Brasil residencial
Casa com SPDA (para-raios) na edificaçãoDPS tipo 1+2 combinadoDPS tipo 1+2 combinadoSPDA exige tipo 1 para descarga direta
Telhado alto, zona rural, alta incidência de raiosDPS tipo 1+2DPS tipo 1+2Avaliar SPDA junto ao projeto
Cabo CC > 10 m entre string box e inversortipo 2 na string box e tipo 2 no inversortipo 2 no quadroDois estágios

O erro que mais vejo é o oposto do que se imagina: não é gente comprando proteção de menos, é integrador colocando só DPS de CA e esquecendo o lado CC. A entrada CC do inversor é justamente a porta mais exposta, porque os cabos dos módulos correm pelo telhado, no ponto mais alto da casa, captando indução de qualquer descarga na vizinhança.

Minha escolha e por quê

Para a casa urbana típica, sem para-raios, eu especifico DPS tipo 2 nos dois lados — um na string box (CC) e um no quadro CA junto ao inversor. É o ponto onde custo e proteção se encontram: cobre os surtos induzidos, que são 90% dos eventos reais, sem pagar pelo tipo 1 que só compensa onde há SPDA ou risco de descarga direta.

Onde eu não economizo é na Uc do lado CC e na classe do produto. Já vi DPS de CC genérico de baixa Uc abrir em curto e desligar a string inteira num verão de chuva forte — o cliente achou que o painel tinha queimado. Era o DPS subdimensionado. Esse é o tipo de “economia” que custa uma visita técnica e dias de geração perdida.

Tem uma coisa que ninguém comenta no orçamento: o DPS é um item de sacrifício. Ele se gasta protegendo. Depois de um surto grande, o indicador de status (a janelinha que muda de verde para vermelho) avisa que o cartucho precisa ser trocado. Se o seu sistema não tem como você ou o instalador ver esse indicador, você está protegido só até o primeiro raio sério — e nunca vai saber que ficou desprotegido. Por isso a posição do DPS dentro do quadro importa tanto quanto o modelo. Esse cuidado anda junto com um aterramento bem-feito, que é o que dá pro DPS um caminho de escoamento real — DPS sem aterramento decente é enfeite.

O DPS quase sempre mora dentro da string box do lado CC, junto com fusíveis e seccionadora, então a discussão “preciso de string box?” e “qual DPS?” são a mesma conversa na prática. E como ele convive com a proteção contra sobrecorrente, vale entender quando os fusíveis de string passam a ser obrigatórios no arranjo fotovoltaico — em sistemas pequenos, às vezes o fusível é dispensável, mas o DPS raramente é.

FAQ

DPS é obrigatório em sistema solar residencial? A NBR 16690 não cita o DPS como item universal e incondicional para toda instalação — a obrigatoriedade depende da análise de risco da NBR 5419 e das condições de exposição. Na prática, distribuidoras e projetistas o exigem na quase totalidade dos projetos residenciais, e omiti-lo costuma ser red flag de orçamento. Em sistema com para-raios na edificação, o tipo 1 deixa de ser opcional.

Se eu já tenho DPS no quadro geral da casa, preciso de outro no solar? Sim, do lado CC quase sempre. O DPS de CA do quadro geral não protege a entrada de corrente contínua do inversor, que é o flanco mais exposto. São dispositivos diferentes para tensões e formas de onda diferentes.

Quanto custa um DPS solar e dá pra trocar sozinho? Um DPS tipo 2 de CC adequado fica na faixa de R$ 60 a R$ 300 por unidade em 2026, dependendo de tensão e marca (segundo cotações de distribuidores como a NeoSolar). A troca do cartucho depois de um surto é simples no modelo plugável, mas mexer dentro do quadro com o sistema energizado é serviço de eletricista — corrente contínua não dá segunda chance.

O seguro do sistema cobre queima por raio se eu não tinha DPS? Aqui mora a pegadinha. Algumas apólices condicionam a cobertura de surto à existência de proteção adequada conforme norma. Vale conferir as cláusulas antes — esse é um dos pontos que detalho no guia sobre como funciona o seguro do sistema solar contra roubo e danos.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

Continue lendo · Equipamentos

Ver tudo →