Kit 15% mais barato, Fio B em 60%: refiz o payback para ver quem venceu
O painel caiu 15% em 2026, mas o Fio B subiu para 60%. Calculei o payback real em São Paulo e Recife para ver qual força ganha na conta líquida.
Em janeiro de 2025, um cliente meu em São Paulo pediu orçamento para um sistema de 5 kWp e desistiu: “o Fio B vai subir, não vale mais”. Em maio de 2026 ele voltou, achando que tinha perdido o bonde. Refiz a planilha dele com os números de hoje — Fio B agora em 60%, mas o kit 15% mais barato — e o resultado contraria os dois lados da mesa: nem ele perdeu o bonde, nem o vendedor que diz “instale já que vai piorar” está certo pelos motivos que ele alega. A conta abaixo está aberta.
O que aconteceu com a planilha entre 2025 e 2026
Duas forças se moveram em direções opostas no mesmo período.
Do lado bom: levantamentos de mercado de 2026 apontam queda de cerca de 15% no preço dos painéis frente a 2025. Um sistema residencial de 5 kWp instalado, que rodava na faixa alta em 2025, hoje aparece entre R$ 17,5 mil e R$ 25 mil dependendo de região e equipamento. Isso reduz o numerador do payback (o investimento).
Do lado ruim: a Lei 14.300/22 levou o Fio B para 60% em 2026, contra 45% em 2025. O Fio B é a parcela da TUSD que você passa a pagar sobre a energia injetada na rede e depois compensada. Quanto maior o percentual, menor a economia mensal — e maior o denominador efetivo do payback.
A pergunta que importa não é “qual subiu/caiu”, é: na conta líquida, o payback de 2026 ficou melhor ou pior que o de 2025?
A conta, aberta, em duas regiões
Premissas que usei (e que você deve trocar pelos seus números antes de decidir):
- Sistema de 5 kWp, geração estimada por HSP regional.
- São Paulo: HSP ~4,4 kWh/m²/dia, tarifa B1 de referência ~R$ 0,92/kWh.
- Recife: HSP ~5,5 kWh/m²/dia, tarifa B1 de referência ~R$ 0,90/kWh.
- Investimento: R$ 22 mil em 2025 → R$ 19 mil em 2026 (refletindo a queda ~15%).
- Injeção na rede: 70% da geração (residência com consumo majoritariamente diurno baixo).
- Degradação 0,55% ao ano. Fio B aplicado sobre a parcela injetada, estimando TUSD ~40% da tarifa.
| Cenário | Geração mês (kWh) | Economia bruta/mês | Desconto Fio B/mês | Economia líquida/mês | Investimento | Payback estimado |
|---|---|---|---|---|---|---|
| SP — 2025 (Fio B 45%) | ~620 | ~R$ 570 | ~R$ 72 | ~R$ 498 | R$ 22.000 | ~3,7 anos |
| SP — 2026 (Fio B 60%) | ~620 | ~R$ 570 | ~R$ 96 | ~R$ 474 | R$ 19.000 | ~3,3 anos |
| Recife — 2025 (Fio B 45%) | ~775 | ~R$ 698 | ~R$ 88 | ~R$ 610 | R$ 22.000 | ~3,0 anos |
| Recife — 2026 (Fio B 60%) | ~775 | ~R$ 698 | ~R$ 118 | ~R$ 580 | R$ 19.000 | ~2,7 anos |
O que a tabela diz e o vendedor não: o payback de 2026 ficou melhor que o de 2025 nas duas cidades, mesmo com o Fio B mais alto. A queda de R$ 3 mil no investimento mais que compensou o aumento de ~R$ 24 a R$ 30/mês no desconto do Fio B. Em SP, de ~3,7 para ~3,3 anos. Em Recife, de ~3,0 para ~2,7.
Por que isso importa pra você
O argumento de venda “instale agora porque o Fio B vai piorar” está certo na direção, errado na ênfase. O Fio B sobe de novo: vai a 75% em 2027, 90% em 2028 e estabiliza em 90% a partir de 2029, segundo o cronograma da Lei 14.300/22. Então sim, esperar tem custo.
Mas o motivo pelo qual instalar em 2026 compensa não é o medo do Fio B — é que a queda de preço do equipamento está, neste momento, ganhando da escalada do Fio B na conta líquida. Essa relação não é garantida para sempre. Se o preço do kit parar de cair e o Fio B continuar subindo (2027, 2028), a aritmética inverte: aí o payback de fato piora ano a ano.
A janela de “preço caindo mais rápido que o Fio B sobe” é 2026. Não porque alguém prometeu — porque a planilha mostra.
Simulando 2027 para testar a robustez da decisão
Não basta saber que 2026 está bom; é preciso saber quanto custa esperar. Pelo cronograma da Lei 14.300/22, o Fio B vai a 75% em 2027. Refiz o caso de São Paulo com duas hipóteses de preço de kit para 2027: preço estável (R$ 19 mil, queda do equipamento estagna) e preço caindo mais 8% (R$ 17,5 mil, continuidade da tendência).
| Cenário SP | Fio B | Investimento | Economia líquida/mês | Payback estimado |
|---|---|---|---|---|
| 2026 (referência) | 60% | R$ 19.000 | ~R$ 474 | ~3,3 anos |
| 2027 — kit estável | 75% | R$ 19.000 | ~R$ 450 | ~3,5 anos |
| 2027 — kit −8% | 75% | R$ 17.500 | ~R$ 450 | ~3,2 anos |
Leitura: se o preço do kit parar de cair, esperar para 2027 piora o payback (de ~3,3 para ~3,5 anos). Se o preço continuar caindo no mesmo ritmo, 2027 fica empatado ou ligeiramente melhor — mas você passou um ano pagando conta cheia. Em ambos os casos, a decisão de instalar em 2026 não se arrepende: o pior cenário é “teria pago quase igual”, não “perdi dinheiro”. Decisão robusta a esperar é decisão que você pode tomar sem ansiedade — e essa é uma delas.
O que fazer com isso agora
- Pegue sua fatura e separe três números: consumo médio mensal (kWh), tarifa total por kWh e o percentual de TUSD que sua distribuidora aplica. Sem isso, qualquer payback é chute.
- Refaça a tabela acima com seu HSP regional. Nordeste e Centro-Oeste pagam o sistema mais rápido que Sul e Sudeste — a diferença chega a 12 a 18 meses.
- Peça orçamento com data. Preço de kit de 2026 muda mês a mês; orçamento sem validade datada não serve para planilha.
- Não use “o Fio B vai subir” como gatilho de pânico. Use como variável: simule também o cenário 2027 (Fio B 75%). Se ainda fecha em payback que você aceita, a decisão fica robusta a esperar alguns meses se precisar.
- Desconfie de payback abaixo de 2,5 anos em qualquer região do Sul/Sudeste. Provavelmente ignoraram o Fio B, a degradação ou a injeção parcial.
A história do meu cliente terminou bem: ele não perdeu o bonde de 2025 — em 2026 o trem estava mais barato. Mas ele só viu isso quando abriu a planilha em vez de ouvir o “instale já” do panfleto.
Fontes
- Lei 14.300/22 — Marco Legal da Geração Distribuída, cronograma de transição do Fio B (15% em 2023 → 60% em 2026 → 90% a partir de 2029)
- ANEEL / Canal Solar — Cobrança de 60% do Fio B a partir de 2026
- Levantamento de preços de kit solar residencial — mercado brasileiro, queda ~15% em 2026 vs 2025
- ANEEL — Tarifas de aplicação (B1 residencial) por distribuidora
- Atlas Brasileiro de Energia Solar (INPE) — Horas de Sol Pleno (HSP) por região
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


