O mesmo sistema solar paga em 4 anos ou em 7? Depende da sua distribuidora — comparei 5
Dois vizinhos podem ter o mesmo sistema de 4 kWp e paybacks que diferem em 3 anos só por causa da tarifa da distribuidora. Comparei Enel SP, Cemig, Coelba, Copel e Equatorial PA com a mesma conta e o mesmo equipamento.
Recebi duas planilhas de orçamento na mesma semana. Sistemas idênticos: 4 kWp, oito módulos de 580 W, inversor string Growatt, R$ 22 mil instalado. Um cliente em São Paulo capital, outro em Salvador. Mesmo equipamento, mesma proposta, mesmo preço. Quando rodei o payback dos dois, deu uma diferença de quase três anos. O paulista recupera o dinheiro em 6,8 anos; o baiano, em 4,1. A única variável que mudou foi a letra impressa lá no cabeçalho da fatura: o nome da distribuidora.
O que realmente decide seu payback (e o que não)
O integrador adora falar de eficiência do módulo, garantia do inversor, “kit premium”. Tudo isso muda o payback em meses. A tarifa da sua distribuidora muda em anos. Por ordem de impacto real na conta:
- Tarifa B1 da sua distribuidora (R$/kWh com impostos). É o preço de cada kWh que você deixa de comprar. Manda em quase tudo.
- HSP da sua região (horas de sol pleno por dia). Define quanto o sistema gera.
- Custo de disponibilidade — a taxa mínima que você paga mesmo gerando tudo (30 kWh em ligação monofásica). A maioria dos orçamentos ignora isso, e ela rói a economia.
- Fração de Fio B vigente (60% em 2026 pela Lei 14.300/22), que abate parte do crédito injetado.
Os dois primeiros são os que separam um payback de 4 anos de um de 7. Vou travar tudo o mais e mexer só neles.
A planilha que padronizei
Pra ser justo, fixei tudo que não é regional:
- Sistema: 4 kWp, R$ 22.000 instalado
- Performance ratio: 80%
- Degradação: 0,55% ao ano (datasheet Tier 1)
- Fio B: 60% em 2026
- Custo de disponibilidade: 30 kWh/mês (monofásico) descontados do abatimento
- Reajuste tarifário: deixei de fora do payback simples (uso tarifa de hoje), pra não inflar resultado — reajuste só melhora o número
A geração anual varia com o HSP. A economia anual varia com a geração e com a tarifa. O payback simples é R$ 22.000 dividido pela economia líquida do ano 1. Fonte das tarifas: tabelas B1 vigentes das distribuidoras nos portais ANEEL/concessionária (faixa de R$/kWh com tributos, base maio/2026). Fonte do HSP: CRESESB / Atlas Solarimétrico do Brasil.
O ranking: mesmo sistema, 5 distribuidoras
| Distribuidora (capital) | HSP | Tarifa B1 c/ imposto | Geração ano 1 | Economia líquida ano 1 | Payback simples |
|---|---|---|---|---|---|
| Coelba (Salvador) | 5,6 | R$ 0,99/kWh | 6.541 kWh | ~R$ 5.380 | 4,1 anos |
| Equatorial (Belém) | 5,0 | R$ 1,02/kWh | 5.840 kWh | ~R$ 4.940 | 4,5 anos |
| Cemig (Belo Horizonte) | 5,1 | R$ 0,98/kWh | 5.957 kWh | ~R$ 4.840 | 4,5 anos |
| Copel (Curitiba) | 4,4 | R$ 0,79/kWh | 5.140 kWh | ~R$ 3.360 | 6,5 anos |
| Enel (São Paulo) | 4,6 | R$ 0,84/kWh | 5.373 kWh | ~R$ 3.700 | 5,9 anos |
Repare no que está acontecendo. Salvador ganha duas vezes: sol forte (HSP 5,6) e tarifa cara (R$ 0,99). Curitiba perde duas vezes: menos sol (4,4) e tarifa barata (R$ 0,79). A combinação dessas duas variáveis abre um intervalo de 4,1 a 6,5 anos no payback — pra exatamente o mesmo cheque de R$ 22 mil.
E tem um detalhe que a maioria ignora: a tarifa cara é o que torna o solar mais atraente, não menos. Quanto mais a distribuidora te cobra por kWh, mais cada kWh gerado pelo seu telhado vale. Por isso o Nordeste, que reclama de conta alta, é onde o solar paga mais rápido.
Minha leitura, sem vendê-la
Se você mora em área de tarifa barata e HSP baixo — Sul, parte do Sudeste serrano —, o payback de 6 a 7 anos ainda é bom (renda fixa não te dá isso protegido de inflação de energia), mas não corra atrás de um sistema gigante. Dimensione pro seu consumo e pare. Superdimensionar onde a tarifa é baixa é jogar dinheiro fora; já fiz essa conta no post sobre payback marginal de cada kWp extra.
Se você mora no Nordeste ou Norte com tarifa alta, o payback rápido é real — mas é exatamente onde aparece o vendedor prometendo “3 anos” e inflando o kit. Tarifa cara não justifica pagar R$ 30 mil num sistema que vale R$ 22 mil. O filtro continua sendo o preço por Wp, não o discurso.
Uma coisa que muda o quadro inteiro: o custo de disponibilidade. Em meses de geração baixa (inverno, manutenção), você paga a taxa mínima cheia, e ela não vira crédito. Em sistemas pequenos isso pesa — é parte do motivo pelo qual contas muito baixas demoram a fechar a conta, como detalhei em quanto a conta de luz precisa ser pra solar valer.
Perguntas que recebo sobre isso
Como descubro a tarifa exata da minha distribuidora? Pega a sua fatura. Procure a linha “tarifa de energia (TE)” somada à “tarifa de uso (TUSD)” e adicione ICMS, PIS e COFINS — ou, mais simples, divida o valor total da fatura (sem iluminação pública) pelo total de kWh consumidos. Esse número, o “preço cheio do kWh”, é o que entra no cálculo do payback. O ICMS, aliás, muda de estado pra estado e tem casos de isenção — vale conferir a situação da isenção de ICMS por estado em 2026.
Se eu mudar de cidade depois de instalar, perco a vantagem? O sistema fica no telhado do imóvel. Se você vender ou alugar, a economia vai pro próximo morador, não pra você — por isso o payback “real” de quem se muda cedo é pior que o da tabela. Tratei desse furo no post sobre valorização do imóvel e payback que ninguém soma.
Vale esperar a tarifa subir pra instalar? Não. Tarifa subindo melhora o payback de quem já tem o sistema. Esperar só adia a economia e te joga numa fração de Fio B maior (75% em 2027). O tempo joga contra quem espera.
Onde isso te leva
Antes de aceitar o “payback de X anos” que o integrador escreveu na proposta, faça uma coisa de cinco minutos: pegue sua última fatura, calcule seu preço real por kWh (valor total ÷ kWh) e divida R$ 22 mil (ou o preço do seu orçamento) pela economia anual estimada. Se o número que o vendedor te deu for muito menor que o seu, ele está usando uma tarifa otimista, ignorando o custo de disponibilidade, ou os dois.
A tabela acima não é pra você copiar — é pra você entender que payback solar é uma conta local. Dois sistemas iguais, duas distribuidoras diferentes, dois destinos financeiros. O seu mora na sua fatura, não no folheto.
Fontes consultadas
- ANEEL — Tarifas residenciais B1 vigentes por distribuidora (portal de tarifas e processos tarifários das concessionárias, base maio/2026)
- CRESESB / Atlas Solarimétrico do Brasil — HSP médio por capital (Salvador, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo)
- Lei 14.300/2022 — cronograma de transição do Fio B (60% em 2026, 75% em 2027)
- Greener — Estudo Estratégico do Mercado Solar Brasileiro 2025/2026 (referência de preço por Wp instalado residencial)
Escrito por
bruno-aragao
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


