sexta-feira, 22 de maio de 2026
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A família que esperou o painel baratear de 2022 a 2026: a conta de quanto custou esperar

O kit caiu de ~R$ 6.000 para ~R$ 4.600/kWp em quatro anos. Mas essa família pagou quatro anos de conta cheia esperando. Refiz a conta dos dois lados.

Eng. Marcela Vargas 5 min de leitura
Família olhando faturas de energia acumuladas com telhado sem painéis ao fundo
Família olhando faturas de energia acumuladas com telhado sem painéis ao fundo

Em 2022, uma família que eu atendi em Goiânia recebeu um orçamento de R$ 30 mil para um sistema de 5 kWp e decidiu esperar. “O painel vai cair, todo mundo diz.” Em maio de 2026 eles voltaram, vitoriosos: o mesmo sistema agora sai perto de R$ 23 mil. Economizaram R$ 7 mil esperando — foi o que eles disseram, sorrindo. Tive de mostrar a outra coluna da planilha, a que eles nunca somaram. Esperar não foi de graça.

O que eles acertaram

Eles estavam certos sobre o equipamento. O kit residencial caiu mesmo. Em 2022, o sistema custava na faixa de R$ 5.500 a R$ 6.500/kWp instalado. Em 2026, oscila entre R$ 3.800 e R$ 5.500/kWp, uma redução de 15% a 20% em quatro anos puxada pela queda do módulo com a superoferta chinesa e pela competição entre instaladores (Solar dos Pomares; Revista Oeste). Para um sistema de 5 kWp, isso é uma diferença real de algo entre R$ 6 mil e R$ 9 mil no orçamento. O instinto deles sobre o preço do hardware não estava errado.

O que estava errado era achar que essa era a única conta.

O que eles não somaram

Enquanto o kit barateava, o telhado deles ficou vazio por quatro anos. E telhado vazio não economiza energia. Eles pagaram conta de luz cheia em 2022, 2023, 2024, 2025 e início de 2026 — toda ela, todo mês, com reajuste tarifário anual em cima.

Vou usar números conservadores e declarados, porque o ponto é a ordem de grandeza, não a precisão de centavo. Uma família de classe média em Goiânia com sistema de 5 kWp costuma ter conta na faixa de R$ 350 a R$ 500/mês antes do solar. Pegue o piso: R$ 350/mês. Em quatro anos são 48 faturas. Sem nenhum reajuste — o que é irreal, a tarifa subiu nesse período —, isso já são cerca de R$ 16,8 mil pagos à distribuidora durante a espera.

A economia no kit foi de R$ 6 mil a R$ 9 mil. O custo de oportunidade de não ter gerado a própria energia nesses quatro anos foi de R$ 16 mil para cima. A conta não fecha a favor de esperar — fecha contra, e com folga.

Lado da conta (5 kWp, Goiânia, premissas conservadoras)Valor estimado
Economia no preço do kit (2022 → 2026)R$ 6.000 a R$ 9.000
Faturas de luz pagas durante 4 anos de espera (piso, sem reajuste)~R$ 16.800
Resultado líquido de ter esperadoNegativo (~R$ 8.000 a R$ 11.000)

E ainda tem o Fio B

Tem um terceiro fator que joga contra esperar e que nem entrou na tabela acima: a Lei 14.300. Quem homologou o sistema até 31/12/2022 ficou no modelo de compensação integral. Quem entra agora pega o Fio B em 60% em 2026, subindo no calendário de transição (Canal Solar; pv magazine Brasil). A família de Goiânia, se tivesse fechado em 2022, estaria hoje compensando 100% — pagaria bem menos de Fio B do que vai pagar entrando em 2026. Esse custo é difícil de cravar em reais sem a fatura real deles na mão, então não somei na tabela. Mas ele existe e empurra a conta ainda mais contra a espera.

Por que isso importa pra você

Se você está adiando solar esperando o preço cair mais, o raciocínio acima é seu também. O hardware ainda pode cair um pouco — o módulo já caiu muito (o preço FOB despencou da casa de US$ 0,25/W para perto de US$ 0,09/W com a superoferta chinesa, segundo o noticiado), e o que sobra de margem para cair é pequeno. Esperar mais um ano para economizar talvez R$ 1.000 a R$ 2.000 no kit, enquanto se paga mais R$ 4.000 a R$ 6.000 de conta de luz e se sobe mais um degrau de Fio B, é trocar um real por menos de um real. A matemática de esperar quase nunca fecha — e fica pior a cada ano de transição da 14.300.

O erro de fundo é mental: as pessoas tratam o solar como compra de eletrônico, onde esperar premia. Não é. É troca de uma despesa recorrente por um ativo. Cada mês de espera é um mês de despesa que não volta.

O que fazer com isso agora

  • Some a sua coluna que falta. Pegue 12 faturas suas e multiplique por quantos anos você já está adiando. Esse é o seu custo real de espera, e ele não aparece em nenhum orçamento.
  • Pare de mirar o piso do preço do kit. Diferença de R$ 4.600 para R$ 4.300/kWp não muda a sua vida. Mais um ano de conta cheia muda.
  • Considere a data de homologação, não a de compra. O enquadramento na Lei 14.300 é pela data em que a distribuidora homologa. Em região com fila longa, comprar hoje pode significar homologar daqui a meses — peça prazo por escrito.
  • Se a única trava é dinheiro à vista, o tema é financiamento (e a taxa importa muito — já tratei disso), não esperar o kit cair.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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