Aterramento do sistema solar residencial: o que a NBR 16690 exige e como checar se o seu está correto
Aterramento mal feito derruba garantia de inversor, cria risco de choque e não passa na vistoria da distribuidora. Engenheira explica o que a NBR 16690 obriga, quais pontos checar no seu sistema e as armadilhas que os instaladores omitem.
Uma cliente em Uberlândia (MG) me mandou foto do inversor Deye que parou de funcionar três meses após a instalação. O display mostrava erro de “Ground Fault” — em português, falha de aterramento. Quando pedi a documentação de comissionamento, o integrador enviou duas fotos: o inversor na parede e os módulos no telhado. Nenhuma imagem do aterramento, nenhuma medição de resistência, sem ART. O fabricante negou a garantia alegando instalação inadequada. O cliente perdeu o inversor de R$ 4.200 e ficou sem geração por seis semanas.
Esse não é um caso isolado. Aterramento é a etapa que mais integradores executam mal — ou pulam — em instalações residenciais de baixo custo. É invisível, não impressiona no portfólio, e o erro demora meses pra aparecer.
O que a NBR 16690 exige (versão objetiva)
A NBR 16690:2019 — “Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos” — é a norma técnica brasileira que rege a maioria das instalações residenciais solares. Junto com a NBR 5410 (instalações de baixa tensão) e a NBR 5419 (proteção contra descargas atmosféricas), ela define o que o instalador precisa fazer para que o sistema seja seguro e aprovado pela distribuidora.
No que diz respeito ao aterramento, a NBR 16690 exige três coisas distintas, que muitos confundem:
1. Aterramento funcional (Equipotencialização) As estruturas metálicas que sustentam os módulos devem ser conectadas entre si e ao condutor de proteção (PE) do sistema. O objetivo é garantir que, se um módulo trincar e a corrente cair na estrutura, não exista diferença de potencial entre os pontos metálicos do telhado — eliminando o risco de choque por toque simultâneo.
2. Aterramento de proteção do inversor O barramento de terra do inversor precisa estar ligado ao aterramento do padrão de entrada da casa. A resistência dessa ligação deve ser suficientemente baixa — a norma não fixa um valor único, mas a maioria dos fabricantes de inversor exige resistência de terra ≤ 10 Ω no ponto de instalação.
3. Aterramento do lado CC (corrente contínua) A NBR 16690 permite, mas não obriga, o aterramento de um dos polos CC (geralmente o negativo) em sistemas de baixa tensão com TT (transformador com neutro aterrado separado). O que ela proíbe é o aterramento parcial ou inconsistente: ou o lado CC é aterrado num único ponto controlado, ou não é aterrado em hipótese alguma. Dois pontos de aterramento no lado CC criam loop de corrente e falhas de isolamento intermitentes — exatamente o erro ISO Fault que descrevi no artigo sobre como diagnosticar a falha de isolamento em inversores solares.
Os 5 pontos que você pode checar sem instrumentação
Antes de pagar a última parcela ao instalador — ou antes de chamar um eletricista pra conferir o trabalho depois —, estes pontos são visualmente verificáveis:
1. Cabo verde-amarelo nas estruturas
Cada trilho de alumínio que sustenta os módulos deve ter um cabo verde-amarelo de 4 mm² ou 6 mm² saindo dele e conectado ao cabo de proteção que desce ao quadro ou ao inversor. Se a estrutura do telhado não tem nenhum cabo verde-amarelo, o aterramento da estrutura não foi feito.
2. Conector de aterramento na estrutura (não pode ser parafuso comum)
A conexão do cabo verde-amarelo na estrutura de alumínio precisa ser feita com conector de aterramento específico (tipo grounding lug, de inox ou latão) — não com um parafuso M6 qualquer que vai oxidar e soltar em dois anos. Pressione levemente o cabo conectado: se balançar, o contato está comprometido.
3. ART de aterramento (separada da ART do projeto)
A NBR 16690 exige ART de execução assinada por engenheiro. Muitos integradores tiram ART do projeto (elétrico + estrutural) e não tiram ART de comissionamento. O cliente deve exigir ambas antes de liberar o pagamento final. A ART de comissionamento é onde o engenheiro atesta que o sistema foi instalado e testado conforme o projeto — incluindo medição de resistência de terra.
4. Equipotencialização entre painéis
Módulos com caixas de junção metálica expostas (raro nos painéis residenciais modernos, mais comum em painéis industriais antigos) precisam ter a carcaça ligada à estrutura. Nos módulos residenciais atuais, a caixa de junção é embutida e não exposta — mas a estrutura ainda precisa da equipotencialização descrita no ponto 1.
5. Ponto de aterramento do inversor visível e etiquetado
O barramento de terra do inversor (símbolo ⏚ ou indicação “PE” ou “GND”) deve estar conectado com cabo de bitola adequada ao sistema de aterramento da casa. Se você ver o inversor instalado com o borneo PE vazio, a instalação está incompleta — independentemente de o sistema estar gerando.
O que a distribuidora verifica (e que pode reprovar o sistema)
Quando a distribuidora faz a vistoria para liberar a conexão, o técnico não sobe no telhado pra medir resistência de terra. Mas verifica o diagrama unifilar e a ART. Se o diagrama unifilar não indicar o sistema de aterramento com simbologia correta (NBR 5444), a vistoria pode ser reprovada.
Outro ponto de reprovação frequente: o sistema de aterramento do padrão de entrada da casa está subdimensionado para absorver a corrente do inversor. Uma casa com padrão monofásico antigo (15 A) e aterramento precário que recebe um inversor de 6 kW (25 A de corrente nominal na saída) precisa ter o aterramento revisado antes da conexão. Isso raramente consta no orçamento do integrador — e o custo de fazer depois é mais alto.
Para entender como o dimensionamento do inversor afeta o que a distribuidora aceita na conexão, veja o artigo sobre fator de dimensionamento DC/AC ratio e seus limites práticos.
Qual a resistência de terra aceitável?
Aqui a norma deixa espaço pra interpretação, então vou dar os números práticos que uso em projetos:
| Contexto | Resistência de terra máxima recomendada |
|---|---|
| Inversor string residencial (fabricante médio) | ≤ 10 Ω |
| Inversor híbrido com bateria LFP | ≤ 4 Ω (fabricantes como Deye/Growatt exigem explicitamente) |
| Instalação em área com alta densidade de raios (Norte/Centro-Oeste) | ≤ 5 Ω (recomendação preventiva com SPDA) |
| Instalação em solo rochoso (resistividade alta) | Até 25 Ω pode ser aceito com malha de aterramento estendida |
A medição é feita com terrômetro (equipamento de medição de resistência de terra) — o instalador deve registrar o valor no relatório de comissionamento. Se ele não tem terrômetro ou não registrou, a medição não foi feita.
Minha leitura direta: onde está o problema de mercado
Na minha experiência com mais de 220 projetos, aterramento mal executado aparece em proporção muito maior em instalações com valor abaixo de R$ 1.800/kWp. Não é coincidência — o integrador que comprime a margem até o osso corta mão de obra especializada e compra material genérico. O aterramento é a primeira coisa que some do escopo porque é invisível e o cliente não vai reclamar no dia 1.
O problema real é que o erro aparece em forma de ISO Fault 8 meses depois, fora da garantia do integrador (a maioria é de 6 a 12 meses de mão de obra). A garantia do inversor é negada por instalação inadequada. E o cliente fica no meio.
A defesa do consumidor é simples: exija ART de comissionamento com medição de resistência de terra antes de pagar a última parcela. Se o integrador disser que ART de comissionamento “não é usual” ou “não está incluída no contrato” — é sinal de que essa etapa não foi feita, e o contrato está incompleto.
Para entender quais outras cláusulas precisam estar no contrato antes de fechar o orçamento solar, veja os 5 erros mais comuns no contrato de instalação solar residencial.
FAQ
O aterramento do sistema solar precisa ser separado do aterramento da casa?
Não obrigatoriamente. Em sistemas com esquema de aterramento TT (o mais comum no Brasil), o terra do inversor é ligado ao mesmo eletrodo de aterramento do padrão de entrada da casa — desde que a resistência seja adequada. O que não pode é não ter aterramento ou ter dois pontos de aterramento no lado CC.
Inversor string de 3 kWp precisa de aterramento igual a um de 10 kWp?
A exigência de aterramento é normativa para qualquer potência — a NBR 16690 não tem faixa de isenção. O que muda é a bitola dos condutores e a resistência máxima exigida pelo fabricante. Um inversor Growatt de 3 kWp tem os mesmos requisitos de PE que um SMA de 10 kWp no que diz respeito ao aterramento de proteção.
O módulo bifacial tem exigência de aterramento diferente?
A estrutura de fixação tem a mesma exigência de equipotencialização. O que muda no bifacial é que a face traseira fica exposta — então a estrutura que sustenta por baixo precisa ter a mesma atenção de aterramento que a face superior. Módulos bifaciais em estrutura elevada com bastante espaço embaixo são mais expostos a umidade acumulada, o que aumenta o risco de corrosão do ponto de aterramento se o conector não for de inox.
Fontes
- ABNT — NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de sistemas fotovoltaicos — Requisitos mínimos, ABNT, 2019, https://www.abntcatalogo.com.br/norma.aspx?ID=412783
- ABNT — NBR 5419:2015 — Proteção de estruturas contra descargas atmosféricas, ABNT, 2015
- Growatt — MIN 2500-6000TL-XH User Manual — Grounding Requirements, https://www.ginverter.com/Uploads/file/MIN-TL-X.pdf
- ABSOLAR / INMETRO — Guia de Boas Práticas para Instalações Fotovoltaicas, 2023, https://www.absolar.org.br/mercado/publicacoes/
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


