sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Aterramento solar mal feito: o sistema vira para-raios sem saída

O instalador disse que o aterramento estava ok. Estava usando a haste velha da residência, sem medir a resistência. Explico por que isso transforma seu sistema em armadilha elétrica.

Eng. Marcela Vargas 6 min de leitura
Técnico instalando haste de aterramento de cobre ao lado de inversor solar montado em parede externa
Técnico instalando haste de aterramento de cobre ao lado de inversor solar montado em parede externa

O cliente me mandou foto do laudo no grupo de WhatsApp com o título “instalação concluída”. Inversor ligado, placa de 5 kWp brilhando no telhado, conta de luz prometendo cair para dois dígitos. Ótimo. Até eu pedir: “Qual foi a resistência medida na haste de aterramento?”

Três pontos suspensivos. Depois silêncio.

O instalador tinha aproveitado o pino terra velho da tomada de parede — sem haste nova, sem medição, sem nenhuma ligação equipotencial nas estruturas dos módulos. O sistema estava gerando energia. Também estava transformando aquela residência em um para-raios com corrente elétrica passando pela carcaça dos módulos sem caminho definido para a terra.

Isso não é exagero. É o que a Canal Solar documenta como “problema real” em instalações residenciais brasileiras, onde o padrão de aterramento precário é mais regra do que exceção.


O que a NBR 16690 exige — e o que o campo ignora

A ABNT NBR 16690:2019 é a norma que rege as instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos no Brasil. Ela estabelece requisitos específicos de aterramento e equipotencialização que vão além do que a NBR 5410 (instalações de baixa tensão em geral) cobre.

O ponto crítico está na ligação equipotencial entre as partes condutoras expostas do arranjo fotovoltaico — estrutura metálica, trilhos, caixas de junção, carcaça do inversor — e o sistema de aterramento. A norma é clara: essas partes devem estar todas interligadas eletricamente e conectadas a uma eletrodo de aterramento adequado. Não ao pino terra existente na tomada do banheiro.

Quando o instalador pula esse passo, o que acontece fisicamente é simples: surtos de tensão causados por indução atmosférica (mesmo sem raio direto na residência) percorrem os cabos do sistema sem encontrar um caminho de baixa impedância para a terra. O destino fica indefinido. Inversor, cabos, estrutura — tudo vira potencial caminho de descarga.

A norma também define que, quando há aterramento funcional de um dos polos do arranjo fotovoltaico, a conexão deve ser feita em ponto único, preferencialmente dentro ou próximo ao inversor. E o inversor precisa ter dispositivo de monitoramento de isolação que comande a desconexão em caso de falta à terra. Inversor sem esse recurso, aterramento sem ponto único definido — a instalação descumpre a NBR 16690 em dois itens ao mesmo tempo.


A NBR 17193:2025 entrou em vigor. Poucos instaladores leram.

Em fevereiro de 2025, a ABNT publicou a NBR 17193:2025, norma específica de segurança contra incêndio em instalações fotovoltaicas conectadas à rede. Ela se aplica a todas as instalações novas ou reformadas a partir dessa data.

Entre os requisitos: análise de risco de incêndio obrigatória, documentação de rotas de acesso e materiais com classificação adequada para não propagar chamas. O instalador que entrega um sistema residencial hoje sem ter lido a NBR 17193:2025 está entregando uma obra fora da norma — mesmo que o painel funcione, mesmo que o inversor ligue.

Na minha leitura, a combinação de aterramento precário com estrutura metálica sem equipotencialização é exatamente o cenário que a 17193 quer eliminar: corrente de fuga sem caminho definido, aquecimento de componentes, risco de arco elétrico. Não é teoria — é o mecanismo por trás de vários incidentes documentados com sistemas fotovoltaicos no Brasil nos últimos três anos.

O ponto mais ignorado da 17193 na prática de campo: a exigência de documentação detalhada entregue ao proprietário, incluindo detalhes de operação e manutenção. Quantos dos sistemas instalados em 2025 têm essa documentação? Na minha experiência com visitas técnicas, a resposta é: a minoria.


O que aconteceu com aquele sistema de 5 kWp

Voltando ao cliente do WhatsApp: pedimos uma visita técnica. O aterramento existente era uma haste de 5/8” de aço cobreado enterrada 50 cm, sem conexão às estruturas dos módulos, sem ponto de medição acessível. A resistência medida com terrômetro digital ficou em 38 ohms — a NBR 5410, seção de aterramento, recomenda valores abaixo de 10 ohms para instalações residenciais; em regiões com alto índice de descargas atmosféricas, alguns projetistas trabalham com menos de 5 ohms.

A correção exigiu:

  • Duas hastes de cobre de 3 metros interligadas em série (malha simples)
  • Cabo de cobre 6 mm² conectando as hastes ao barramento de aterramento do inversor
  • Cabo de cobre 4 mm² ligando a estrutura metálica de cada fileira de módulos ao mesmo barramento
  • Medição final: 6,2 ohms

Custo da correção: R$ 480 em material + mão de obra. O instalador original não cobrou esse valor porque ficou fora do escopo do contrato. O proprietário pagou do bolso — sem nenhum aviso de que o sistema original estava irregular.


Checklist próprio: 5 pontos que verifico antes de assinar qualquer laudo

Estes cinco itens são os que uso em visitas técnicas pós-instalação. Não estão explícitos assim em nenhuma fonte — são o resultado de anos de campo e de cases onde o aterramento foi o problema escondido:

  1. Medição de resistência documentada. O instalador deve apresentar leitura de terrômetro com data, condições do solo (seco/molhado) e resultado em ohms. Sem isso, o aterramento é uma suposição, não um dado.

  2. Haste de cobre, não de aço apenas. Haste de aço cobreado com revestimento fino corrói em 3 a 5 anos em solo ácido ou salino. Em regiões costeiras e Nordeste úmido, só haste de cobre maciço ou aço inox.

  3. Ligação equipotencial visível nas estruturas. Todo trilho metálico de fixação dos módulos deve ter cabo de cobre (mínimo 4 mm²) levando ao barramento de aterramento do inversor. É uma conexão física. Se não estiver visível, não existe.

  4. Ponto único de aterramento funcional no inversor. Dois pontos de aterramento funcional no mesmo circuito criam loop que anula a proteção. Peça ao instalador mostrar no datasheet do inversor onde está o terminal de aterramento funcional e confirmar que há um único ponto de conexão.

  5. Documentação NBR 17193:2025. Para qualquer sistema instalado após fevereiro de 2025: exija o documento de análise de risco de incêndio e o manual de operação/manutenção com rota de acesso. Se o instalador disser que “não é obrigatório”, mostre a norma. Ela é.


Aterramento mal feito é o tipo de problema que não aparece na conta de luz nem no monitoramento do inversor. O sistema gera. O cliente fica satisfeito. O risco fica lá, silencioso, esperando um surto atmosférico de setembro em Minas ou uma tempestade de verão em São Paulo para mostrar onde estava o erro.

Quando o proprietário perguntar “está tudo certo com a instalação?”, a resposta honesta começa com uma pergunta: “Qual foi a resistência de aterramento medida?”

Se o instalador não souber responder, você já sabe o suficiente.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Marcela Vargas

Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.

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