Aterramento solar mal feito: o sistema vira para-raios sem saída
O instalador disse que o aterramento estava ok. Estava usando a haste velha da residência, sem medir a resistência. Explico por que isso transforma seu sistema em armadilha elétrica.
O cliente me mandou foto do laudo no grupo de WhatsApp com o título “instalação concluída”. Inversor ligado, placa de 5 kWp brilhando no telhado, conta de luz prometendo cair para dois dígitos. Ótimo. Até eu pedir: “Qual foi a resistência medida na haste de aterramento?”
Três pontos suspensivos. Depois silêncio.
O instalador tinha aproveitado o pino terra velho da tomada de parede — sem haste nova, sem medição, sem nenhuma ligação equipotencial nas estruturas dos módulos. O sistema estava gerando energia. Também estava transformando aquela residência em um para-raios com corrente elétrica passando pela carcaça dos módulos sem caminho definido para a terra.
Isso não é exagero. É o que a Canal Solar documenta como “problema real” em instalações residenciais brasileiras, onde o padrão de aterramento precário é mais regra do que exceção.
O que a NBR 16690 exige — e o que o campo ignora
A ABNT NBR 16690:2019 é a norma que rege as instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos no Brasil. Ela estabelece requisitos específicos de aterramento e equipotencialização que vão além do que a NBR 5410 (instalações de baixa tensão em geral) cobre.
O ponto crítico está na ligação equipotencial entre as partes condutoras expostas do arranjo fotovoltaico — estrutura metálica, trilhos, caixas de junção, carcaça do inversor — e o sistema de aterramento. A norma é clara: essas partes devem estar todas interligadas eletricamente e conectadas a uma eletrodo de aterramento adequado. Não ao pino terra existente na tomada do banheiro.
Quando o instalador pula esse passo, o que acontece fisicamente é simples: surtos de tensão causados por indução atmosférica (mesmo sem raio direto na residência) percorrem os cabos do sistema sem encontrar um caminho de baixa impedância para a terra. O destino fica indefinido. Inversor, cabos, estrutura — tudo vira potencial caminho de descarga.
A norma também define que, quando há aterramento funcional de um dos polos do arranjo fotovoltaico, a conexão deve ser feita em ponto único, preferencialmente dentro ou próximo ao inversor. E o inversor precisa ter dispositivo de monitoramento de isolação que comande a desconexão em caso de falta à terra. Inversor sem esse recurso, aterramento sem ponto único definido — a instalação descumpre a NBR 16690 em dois itens ao mesmo tempo.
A NBR 17193:2025 entrou em vigor. Poucos instaladores leram.
Em fevereiro de 2025, a ABNT publicou a NBR 17193:2025, norma específica de segurança contra incêndio em instalações fotovoltaicas conectadas à rede. Ela se aplica a todas as instalações novas ou reformadas a partir dessa data.
Entre os requisitos: análise de risco de incêndio obrigatória, documentação de rotas de acesso e materiais com classificação adequada para não propagar chamas. O instalador que entrega um sistema residencial hoje sem ter lido a NBR 17193:2025 está entregando uma obra fora da norma — mesmo que o painel funcione, mesmo que o inversor ligue.
Na minha leitura, a combinação de aterramento precário com estrutura metálica sem equipotencialização é exatamente o cenário que a 17193 quer eliminar: corrente de fuga sem caminho definido, aquecimento de componentes, risco de arco elétrico. Não é teoria — é o mecanismo por trás de vários incidentes documentados com sistemas fotovoltaicos no Brasil nos últimos três anos.
O ponto mais ignorado da 17193 na prática de campo: a exigência de documentação detalhada entregue ao proprietário, incluindo detalhes de operação e manutenção. Quantos dos sistemas instalados em 2025 têm essa documentação? Na minha experiência com visitas técnicas, a resposta é: a minoria.
O que aconteceu com aquele sistema de 5 kWp
Voltando ao cliente do WhatsApp: pedimos uma visita técnica. O aterramento existente era uma haste de 5/8” de aço cobreado enterrada 50 cm, sem conexão às estruturas dos módulos, sem ponto de medição acessível. A resistência medida com terrômetro digital ficou em 38 ohms — a NBR 5410, seção de aterramento, recomenda valores abaixo de 10 ohms para instalações residenciais; em regiões com alto índice de descargas atmosféricas, alguns projetistas trabalham com menos de 5 ohms.
A correção exigiu:
- Duas hastes de cobre de 3 metros interligadas em série (malha simples)
- Cabo de cobre 6 mm² conectando as hastes ao barramento de aterramento do inversor
- Cabo de cobre 4 mm² ligando a estrutura metálica de cada fileira de módulos ao mesmo barramento
- Medição final: 6,2 ohms
Custo da correção: R$ 480 em material + mão de obra. O instalador original não cobrou esse valor porque ficou fora do escopo do contrato. O proprietário pagou do bolso — sem nenhum aviso de que o sistema original estava irregular.
Checklist próprio: 5 pontos que verifico antes de assinar qualquer laudo
Estes cinco itens são os que uso em visitas técnicas pós-instalação. Não estão explícitos assim em nenhuma fonte — são o resultado de anos de campo e de cases onde o aterramento foi o problema escondido:
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Medição de resistência documentada. O instalador deve apresentar leitura de terrômetro com data, condições do solo (seco/molhado) e resultado em ohms. Sem isso, o aterramento é uma suposição, não um dado.
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Haste de cobre, não de aço apenas. Haste de aço cobreado com revestimento fino corrói em 3 a 5 anos em solo ácido ou salino. Em regiões costeiras e Nordeste úmido, só haste de cobre maciço ou aço inox.
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Ligação equipotencial visível nas estruturas. Todo trilho metálico de fixação dos módulos deve ter cabo de cobre (mínimo 4 mm²) levando ao barramento de aterramento do inversor. É uma conexão física. Se não estiver visível, não existe.
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Ponto único de aterramento funcional no inversor. Dois pontos de aterramento funcional no mesmo circuito criam loop que anula a proteção. Peça ao instalador mostrar no datasheet do inversor onde está o terminal de aterramento funcional e confirmar que há um único ponto de conexão.
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Documentação NBR 17193:2025. Para qualquer sistema instalado após fevereiro de 2025: exija o documento de análise de risco de incêndio e o manual de operação/manutenção com rota de acesso. Se o instalador disser que “não é obrigatório”, mostre a norma. Ela é.
Aterramento mal feito é o tipo de problema que não aparece na conta de luz nem no monitoramento do inversor. O sistema gera. O cliente fica satisfeito. O risco fica lá, silencioso, esperando um surto atmosférico de setembro em Minas ou uma tempestade de verão em São Paulo para mostrar onde estava o erro.
Quando o proprietário perguntar “está tudo certo com a instalação?”, a resposta honesta começa com uma pergunta: “Qual foi a resistência de aterramento medida?”
Se o instalador não souber responder, você já sabe o suficiente.
Fontes
- Instalação de sistemas fotovoltaicos em locais com aterramento precário — Canal Solar
- Proposta de revisão da NBR 16690: aterramento de usinas fotovoltaicas — Canal Solar
- NBR 17193:2025 — Segurança contra incêndios em instalações fotovoltaicas — SolarEdge
- Norma ABNT NBR 17193/2025 exige mais segurança na energia solar — Sun7 Energia Solar
- ABNT NBR 16690:2019 — Revisão: aterramento — Canal Solar
Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


