O BDI escondido no orçamento solar: o que o integrador não chama pelo nome
Compare três orçamentos de 5 kWp e três deles vão bater quase no mesmo preço final. A diferença está numa linha que nenhum chama pelo nome — o BDI. Mostro como achar.
Recebi três orçamentos de um cliente em Goiânia na semana passada. Sistema de 5,28 kWp, mesmos painéis Trina Vertex S+, mesmo inversor Growatt MIN 5000TL-X, telhado cerâmico, distância da concessionária quase idêntica. Os preços vieram R$ 21.480, R$ 22.110 e R$ 22.730. Quando você olha as três planilhas lado a lado, parece que cada um chegou no número por caminhos diferentes. Mas o que está acontecendo é o oposto: os três embutem a mesma coisa, só que com nomes diferentes — e nenhum chama essa coisa pelo nome técnico, que é BDI.
A tese
BDI é “Benefícios e Despesas Indiretas” — a margem do integrador somada a custos administrativos, impostos sobre o serviço e contingência. Em obra pública e em construção civil, BDI vem destacado no orçamento, com percentual transparente (geralmente 20-30%). Em solar residencial, ele virou um número fantasma: está lá em todos os orçamentos, mas nenhum integrador escreve “BDI” na planilha. Ele se esconde em “instalação”, “projeto”, “ART”, “comissionamento”. Quem não sabe somar essas linhas paga 28% de margem achando que pagou 15%.
Como o BDI aparece travestido nas 3 planilhas
No orçamento de R$ 21.480, a estrutura era esta: equipamentos R$ 14.800 (módulos + inversor + estrutura + cabos), instalação R$ 4.200, projeto e ART R$ 1.400, comissionamento R$ 480, homologação na concessionária R$ 600. O integrador deste mostrou tudo “discriminado”.
No de R$ 22.110, mudou o formato: equipamentos R$ 15.200, “serviço chave na mão” R$ 6.910. Uma linha só de serviço. Sem detalhar.
No de R$ 22.730, voltou a discriminar: equipamentos R$ 14.600, mão de obra R$ 3.800, projeto R$ 1.800, ART R$ 480, comissionamento R$ 750, transporte R$ 600, lucro operacional R$ 700.
Olha o terceiro: ele foi o único que escreveu “lucro” em algum lugar. Os outros dois enterraram esse mesmo lucro dentro das linhas de instalação e projeto.
A conta de quem cobra quanto de margem
Equipamento de 5,28 kWp na cotação atacado em maio de 2026 (Solfácil, Aldo, Edeltec, EngeSolar como referência de preço B2B) fica em torno de R$ 13.400 a R$ 14.200 — depende muito da marca do módulo e da disponibilidade do inversor. Vou usar R$ 13.800 como ponto médio.
Mão de obra real (instalador + ajudante, 2 dias, encargos): R$ 1.800 a R$ 2.400.
Projeto e ART do CREA: R$ 600 a R$ 900.
Homologação na concessionária (parecer + vistoria): R$ 350 a R$ 600 (varia muito por estado; Equatorial cobra mais que CEMIG).
Comissionamento e teste: R$ 250.
Soma do custo real médio: aproximadamente R$ 17.150.
Cliente paga R$ 21.480 no orçamento 1 — BDI implícito de 25,2%. Cliente paga R$ 22.110 no orçamento 2 — BDI implícito de 28,9%. Cliente paga R$ 22.730 no orçamento 3 — BDI implícito de 32,5%.
E o cliente acha que o terceiro foi o mais “honesto” porque escreveu “lucro” — quando é o que pratica a maior margem dos três.
O contra-argumento honesto
BDI de 25-30% em integrador pequeno não é roubo. É o número que cobre estrutura mínima: caminhão, seguro, vendedor, contador, garantia de 1 ano da instalação, retorno pra troca de string defeituosa. Integrador que cobra 12% de margem ou vai quebrar em 18 meses ou está cortando algo (encargo trabalhista, projeto feito por desenhista sem CREA, equipamento paralelo).
O problema não é cobrar 28% de BDI. É não dizer que cobra.
O que pedir antes de assinar
Peça por escrito a abertura em 4 linhas: (1) equipamentos com nota fiscal de fornecedor, (2) mão de obra com encargos, (3) projeto + ART + homologação separados, (4) margem do integrador (chame de “margem” ou “BDI” — o nome importa menos que o número aparecer). O integrador que se recusa a abrir essas 4 linhas está cobrando BDI de 35-40% e contando que você não vai notar. Eu não fecharia contrato sem essa abertura.
Fontes
- Lei 8.666/93 e Lei 14.133/21 (Lei de Licitações) — referência conceitual de BDI em obra pública
- TCU Acórdão 2622/2013 — composição padrão de BDI
- Cotações B2B Solfácil, Aldo, Edeltec, EngeSolar (maio de 2026)
- Tabela de honorário CREA-GO 2026 (referência projeto + ART)
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


