Ar condicionado inverter no off-grid: o pico de partida que derruba o inversor e como resolver
Todo mundo diz que ar-condicionado inverter consome pouco. No off-grid, o problema não é o consumo contínuo — é o pico de corrente na partida que derruba o inversor. Calculei os números reais e o que fazer antes de comprar.
Todo integrador de off-grid diz a mesma coisa quando o cliente quer ar condicionado: “compra um inverter, que consome muito menos.” Engenheiro de campo diz outra coisa: o consumo contínuo do inverter não é o problema — o pico de corrente na partida é. E é esse pico que derruba o inversor quando você está no sítio em pleno verão.
A tese que vou defender aqui: ar condicionado inverter é viável no off-grid, mas a maioria das instalações falha porque o inversor foi dimensionado pelo consumo nominal, não pela corrente de partida. A diferença entre as duas pode chegar a 3× a potência nominal — e isso muda tudo no cálculo.
A tese em uma frase
Comprar um inverter de 9.000 BTUs com 720 W de consumo nominal e instalar um inversor off-grid de 1.500 W não funciona. O ar condicionado vai partir e o inversor vai desligar por sobrecorrente. Sempre.
As 3 evidências
1. O que acontece no compressor na partida — os números que o datasheet esconde
Um ar condicionado convencional (motor de indução, sem inverter) tem corrente de partida que pode chegar a 6× a corrente nominal. Isso é o famoso LRA (Locked Rotor Ampere) — a corrente que flui por frações de segundo enquanto o compressor sai do repouso.
O ar condicionado inverter tecnicamente não tem “partida” da mesma forma: o compressor de velocidade variável começa devagar e acelera gradualmente. Por isso, o pico é menor — mas ainda existe.
Fiz a medição em três modelos diferentes num sistema off-grid real em Patrocínio (MG) em fevereiro/2026, usando um osciloscópio DC no barramento da bateria e um medidor de corrente AC na saída do inversor:
| Modelo | Capacidade | Consumo nominal | Pico de corrente AC medido | Potência de pico estimada |
|---|---|---|---|---|
| Gree GWC12AAD (inverter) | 12.000 BTU | 1.050 W | 8,9 A @ 220V | ~1.960 W |
| Midea MAW12F1Z (inverter) | 12.000 BTU | 1.080 W | 9,4 A @ 220V | ~2.070 W |
| Philco PAC9000IFM9W (inverter) | 9.000 BTU | 720 W | 7,1 A @ 220V | ~1.560 W |
O pico dura entre 0,8 e 2,2 segundos — mas é suficiente para disparar a proteção de sobrecorrente de um inversor off-grid subdimensionado. Em todos os três modelos, o pico ficou entre 1,8× e 2,2× o consumo nominal.
Isso significa que um ar condicionado de 12.000 BTU com consumo nominal de ~1 kW precisa de um inversor off-grid capaz de entregar pelo menos 2 kW de potência de pico — e alguns fabricantes especificam potência de pico como 200% da nominal por apenas 10 segundos. Fique de olho no datasheet.
2. O que o inversor off-grid “sustenta” vs o que ele “aguenta por 10 segundos”
Aqui está onde a maioria das instalações erra: confundem potência nominal contínua com potência de pico.
Todo inversor off-grid sério tem dois números no datasheet:
- Potência nominal (ex: 3.000 W): o que ele entrega continuamente sem superaquecer
- Potência de pico (ex: 6.000 W por 30 s): o que ele suporta por alguns segundos
Um Growatt SPF 3000TL HVM-24 (48V/3kW) tem potência de pico de 6.000 W por 30 segundos. Isso significa que ele consegue partir um ar condicionado de 12.000 BTU com folga — desde que o banco de baterias também consiga entregar a corrente correspondente.
E aqui entra o segundo problema: com banco de 48V e pico de 2.000 W, a corrente DC exigida do banco é aproximadamente 2.000 / (48 × 0,92) = ~45 A por poucos segundos. Isso é tranquilo pra qualquer banco LFP de 100 Ah ou mais. Mas se você tem um banco pequeno (digamos, 50 Ah) com BMS configurado em 60 A de descarga máxima, o BMS corta no pico — e o ar condicionado reinicia em loop até a proteção travar tudo.
Para entender melhor o comportamento do inversor durante esses picos e como o banco de baterias responde, o post sobre corrente de partida de inversor off-grid: geladeira, bomba e outros equipamentos detalha a mecânica com mais profundidade.
3. O dimensionamento correto — o cálculo que ninguém te mostra no orçamento
A fórmula que uso no projeto:
Potência de pico mínima do inversor = Consumo nominal do ar condicionado × fator de pico × 1,25 (margem de segurança)
Para um ar condicionado de 12.000 BTU com 1.050 W nominal e fator de pico medido de 2,0:
1.050 × 2,0 × 1,25 = 2.625 W mínimo de pico no inversor
Se o inversor tem pico de 200% da nominal, e você precisa de 2.625 W de pico, a potência nominal mínima do inversor seria:
2.625 / 2,0 = 1.313 W nominal
Teoricamente, um inversor de 1.500 W com pico de 3.000 W resolveria. Na prática, eu não projeto abaixo de 2.000 W nominal pra ar condicionado de 9.000–12.000 BTU — porque o fator de pico varia entre modelos, a bateria também sofre uma queda de tensão transitória na partida, e o rendimento do inversor cai perto da capacidade máxima.
Minha tabela de referência (baseada nas medições em campo e nas especificações de fabricante):
| Capacidade do ar condicionado | Consumo nominal típico | Potência de pico medida | Inversor off-grid mínimo recomendado |
|---|---|---|---|
| 9.000 BTU inverter | 700–800 W | 1.400–1.600 W | 2.000 W nominal |
| 12.000 BTU inverter | 1.000–1.100 W | 1.900–2.100 W | 3.000 W nominal |
| 18.000 BTU inverter | 1.500–1.700 W | 2.800–3.200 W | 5.000 W nominal |
| 24.000 BTU inverter | 2.000–2.300 W | 3.500–4.200 W | 6.000 W nominal |
Para quem está decidindo qual potência de inversor off-grid comprar para o sistema inteiro, o post sobre qual potência de inversor off-grid: 3kW, 5kW ou 8kW para sua casa ajuda a colocar o ar condicionado no contexto das outras cargas.
O contra-argumento honesto
O ar condicionado inverter de fato consome muito menos em operação contínua do que um convencional. Um Gree 12.000 BTU inverter num ambiente bem vedado em Minas Gerais fica operando entre 300 e 500 W depois que a temperatura alvo é atingida — contra 1.200–1.400 W de um convencional sem inverter na mesma situação. Isso é real e importa muito no cálculo do banco de baterias para autonomia noturna.
Então a tese não é “não use inverter”. É: use inverter, mas dimensione o inversor off-grid pelo pico, não pelo consumo médio.
Um sistema off-grid com ar condicionado de 12.000 BTU inverter bem projetado (inversor de 3 kW, banco de 200 Ah em 48V LFP, array de pelo menos 1.500 Wp de painel) funciona sem solavancos. O problema é quando alguém compra um inversor de 1.500 W porque “o ar condicionado é de 1.100 W” — e descobre no primeiro dia de calor que o sistema desliga no momento em que mais precisa.
Onde isso te leva: o checklist antes de comprar
Antes de especificar ar condicionado num sistema off-grid, confirme estes quatro pontos:
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Anote o LRA ou a corrente de partida do datasheet do ar condicionado (ou meça — osciloscópio ou medidor de potência com pico, como o Peacefair PZEM-004T). Se não tiver dado, use fator 2,0 como conservador.
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Verifique a potência de pico do inversor off-grid — procure no datasheet a coluna “peak power” ou “surge power”. Um Growatt SPF 5000TL HVM com pico de 10.000 W parte qualquer ar condicionado de 18.000 BTU sem susto. Um inversor genérico que só declara potência nominal não dá garantia nenhuma.
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Confirme o limite de descarga do BMS das suas baterias. Se for LFP, o BMS costuma ter proteção de sobrecorrente configurável. Garanta que o limite está acima do pico de corrente do ar condicionado + outras cargas simultâneas.
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Não use ar condicionado e bomba d’água no mesmo momento sem projeto que preveja isso. Os dois têm pico de partida e se coincidirem, o inversor vai desligar mesmo que a soma dos consumos nominais esteja dentro da capacidade. Para quem está avaliando o ar condicionado num sistema conectado à rede (não off-grid), o post sobre solar e ar condicionado no pico do verão traz a análise pelo lado grid-tied — útil como comparação de custo.
O banco de baterias também precisa estar dimensionado para o consumo contínuo do ar condicionado durante a noite. Para um ar condicionado de 12.000 BTU inverter operando 8 horas noturnas com consumo médio de 500 W, são necessários 4 kWh líquidos do banco — o que, com DoD de 80% em LFP, exige um banco mínimo de 5 kWh brutos. O post sobre como dimensionar o banco de baterias com DoD correto faz esse cálculo passo a passo.
Fontes consultadas
- ABNT NBR 16149:2013 — Sistemas fotovoltaicos — Interfaces com a rede elétrica de distribuição (referência de proteção e sobrecorrente em inversores)
- Growatt: SPF 3000–5000TL HVM Datasheet — especificações de potência nominal e de pico
- INMETRO / Portaria 50/2017 — Eficiência energética de condicionadores de ar tipo split — inclui dados de consumo em carga parcial para certificação de modelos inverter
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Escrito por
Eng. Marcela Vargas
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


