Financiei solar a 2,3% ao mês — e o payback que o integrador prometeu não existia
Simulei o payback real de um sistema de R$ 28 mil financiado a 2,3% ao mês (60 parcelas) vs. capital próprio. A diferença é de 4,7 anos. E o integrador não mostrou isso no orçamento.
O Rafael me procurou em março com o contrato na mão — 60 parcelas de R$ 742, sistema de 5 kWp instalado em Goiânia, conta atual de R$ 520/mês. O integrador tinha mostrado no slide: “payback 4 anos e meio”. Rafael assinou feliz. O que o slide não mostrava era que, ao final das 60 parcelas, ele teria pago R$ 44.520 por um sistema de R$ 28.000. E o payback real? Oito anos e dois meses.
O que aconteceu
O integrador calculou o payback da maneira que a maioria calcula: dividiu o custo do sistema (R$ 28.000) pela economia mensal estimada (R$ 520) e chegou em 53 meses — 4 anos e 5 meses. Arredondou pra “4 anos e meio” na apresentação. Cálculo tecnicamente certo, financeiramente errado.
O erro está em ignorar que Rafael não pagou R$ 28.000. Ele pagou R$ 44.520. E que as parcelas de R$ 742 não são economia — são despesa. O sistema gera R$ 520/mês de abatimento na conta. Rafael continua pagando R$ 742 ao banco. O saldo do primeiro mês é negativo: -R$ 222.
Pra o sistema “se pagar” de verdade, ele precisa cobrir os juros acumulados ao longo dos 60 meses, não só o custo inicial. Ninguém explica isso na reunião de venda.
A premissas que usei (explícitas, como sempre)
Antes de entrar nos números, o que fixei:
- Localidade: Goiânia (GO) — HSP 5,5 kWh/m²/dia (CRESESB)
- Sistema: 5 kWp, performance ratio 80%
- Geração estimada ano 1: 5 × 5,5 × 365 × 0,80 = 8.030 kWh/ano ou 669 kWh/mês
- Tarifa Celg-D B1 vigente em junho/2026: R$ 0,78/kWh (com Fio B 60% já incluído)
- Economia mensal ano 1: 669 × 0,78 = R$ 522/mês
- Degradação anual dos módulos: 0,55% (datasheet Tier 1)
- Reajuste tarifário projetado: IPCA + 2 pp (histórico ANEEL, conservador)
- Custo do sistema à vista: R$ 28.000
- Financiamento CDC: 60 parcelas fixas a 2,3% am → parcela mensal R$ 742 → total pago R$ 44.520
- Custo de manutenção: R$ 400/ano a partir do ano 6; troca de inversor no ano 11 (R$ 3.800)
Cenário 1: capital próprio (R$ 28.000 à vista)
No cenário à vista, o payback é simples: somo a economia mensal acumulada até ela cobrir os R$ 28.000.
| Ano | Economia acumulada (R$) | Custo acumulado (R$) | Saldo |
|---|---|---|---|
| 1 | 6.264 | 28.000 | -21.736 |
| 2 | 12.848 | 28.000 | -15.152 |
| 3 | 19.774 | 28.000 | -8.226 |
| 4 | 27.064 | 28.400 | -1.336 |
| 4,1 | 28.180 | 28.400 | ≈ 0 |
Payback à vista: 4 anos e 1 mês. (Ligeiramente melhor que o slide do integrador porque usei reajuste tarifário projetado de IPCA + 2pp, que vai corrigindo a economia pra cima com o tempo.)
Cenário 2: financiamento a 2,3% ao mês (60 parcelas)
Aqui a conta muda de lógica. Não é mais “quando a economia cobre o custo do equipamento”. É: “quando a economia acumulada supera o total desembolsado nas parcelas + os custos de manutenção?”
No financiado, o fluxo de caixa mensal real é:
Fluxo = Economia gerada − Parcela do banco
Nos primeiros meses: R$ 522 − R$ 742 = −R$ 220/mês (negativo).
O sistema só começa a gerar saldo positivo depois que as parcelas acabam — ou seja, no mês 61 em diante. Até lá, o consumidor desembolsou R$ 44.520 e recebeu de volta (em abatimento na conta) a economia acumulada de 60 meses.
| Período | Economia acumulada (R$) | Total pago ao banco (R$) | Saldo |
|---|---|---|---|
| Mês 12 | 6.415 | 8.904 | -2.489 |
| Mês 24 | 13.282 | 17.808 | -4.526 |
| Mês 36 | 20.631 | 26.712 | -6.081 |
| Mês 48 | 28.489 | 35.616 | -7.127 |
| Mês 60 | 36.886 | 44.520 | -7.634 |
| Mês 72 | 46.143 | 44.520 | +1.623 |
| Mês 84 | 56.021 | 44.520 | +11.501 |
| Mês 98 | 68.800 | 44.520 + 4.200 manutenção | ≈ 0 |
Payback financiado: 8 anos e 2 meses. Quatro anos a mais do que à vista. E quatro anos a mais do que o integrador prometeu no slide.
Para quem financiar a taxas ainda maiores — 2,5% am, que é a prática de algumas financeiras especializadas em solar segundo levantamento do comparativo de CDC e bancos para solar de maio/2026 — o payback estica pra 9 anos e 4 meses. A cada 0,1 ponto percentual a mais na taxa mensal, o payback cresce entre 2 e 3 meses, dependendo do tamanho do sistema e da tarifa local.
Por que isso importa pra você
Eu entendo a lógica de quem financia: “a parcela cabe no bolso, e a conta de luz vai cair”. Certo. Mas “caber no bolso” e “ser um bom investimento” são coisas diferentes.
No cenário financiado a 2,3% am:
- Rafael paga R$ 220/mês a mais do que economiza nos primeiros 5 anos
- O sistema só começa a gerar ganho líquido no 61º mês
- O custo real do sistema foi R$ 44.520, não R$ 28.000
- A TIR real do investimento, considerando o dinheiro que saiu do bolso mês a mês, cai de 13,4% aa (à vista) pra 6,1% aa (financiado a 2,3% am)
6,1% ao ano de TIR real ainda não é ruim — é próximo de um CDB 100% do CDI líquido de IR. Mas não é o “retorno extraordinário de 25-30% ao ano” que alguns materiais de integrador sugerem. É um investimento moderado com iliquidez alta. Se você ainda está pesquisando se fecha a conta antes de assinar, leia a análise de financiamento vs à vista com TIR e VPL calculados.
O que fazer com isso agora
Se você está na reunião com o integrador e ele mostra o payback sem perguntar como você vai pagar, faça três perguntas antes de assinar:
- “Esse payback considera que pagarei à vista ou financiado?” — se for financiado, peça o recalculo com as parcelas reais, não só com o valor do equipamento.
- “Qual a taxa exata do financiamento que vocês estão simulando?” — tem integrador que usa 1,5% am no slide (patamar de 2021) e fecha o contrato atual a 2,3% am. Verifique no documento de adesão.
- “Qual o custo total ao final das parcelas (Custo Efetivo Total — CET)?” — o CET inclui taxa de cadastro, seguro e IOF, que na prática empurram o custo real um pouco além da taxa nominal. Exija esse número.
Se a resposta a qualquer uma dessas três perguntas vier com enrolação, é um sinal. Integrador sério não tem problema em mostrar a conta aberta. Para entender melhor como a regulação atual afeta essa conta — especialmente com Fio B subindo a 75% em 2027 — vale cruzar com a análise do BNDES Finem solar e taxas de 2026, que tem as taxas subsidiadas que podem mudar completamente essa equação.
E sobre o Rafael: ele não arrependeu da decisão. Em 8 anos, o sistema vai continuar gerando por mais 17. A questão não era “solar vale a pena” — era “você deveria ter negociado a taxa, ou buscado o capital no seu consórcio que estava parado”. A resposta era sim.
Fontes consultadas
- ANEEL — Tarifas residenciais B1 distribuidoras por estado, junho/2026 (SAMP/ANEEL, consulta pública)
- CRESESB — Atlas Solarimétrico do Brasil, HSP médio Goiânia (GO): 5,5 kWh/m²/dia (https://cresesb.cepel.br)
- BACEN — Relatório de Taxas de Juros de Operações de Crédito (Nota de Crédito, maio/2026): CDC pessoa física para bens duráveis, taxa mediana (https://www.bcb.gov.br)
- Lei 14.300/22 — cronograma de transição Fio B (60% em 2026, 75% em 2027)
- Greener — Estudo Estratégico Mercado Fotovoltaico Brasil 1º semestre 2026: preço médio Wp instalado por região
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


