Solar com piscina: payback real da bomba, aquecedor e UV — fiz a conta para 3 perfis
Piscina eleva o consumo em 150 a 600 kWh/mês. Recalculei o payback solar para três perfis de dono de piscina no Brasil — com bomba, aquecedor a bomba de calor e UV separados, HSP regional e tarifa real.
Conversei em março de 2026 com um proprietário em Ribeirão Preto (SP) que estava feliz com o solar que havia instalado dois anos antes — mas a conta de luz continuava em R$ 490 por mês. O sistema de 5 kWp cobria a casa inteira. O problema? A piscina de 45 mil litros, com bomba de 1,5 cv e aquecedor a bomba de calor de 5 kW, funcionava das 8h da noite às 8h da manhã. Doze horas fora da janela solar, todo dia. O payback que o integrador prometeu em 4 anos vai chegar em 7,5 — se ele não mudar os horários.
O que importa decidir antes de dimensionar
Piscina não é uma carga — são três cargas distintas com comportamentos completamente diferentes:
1. Bomba de circulação: motor de 0,5 a 2 cv, rodando 6-10h/dia. Em geral, dá pra colocar 100% na janela solar (ligada das 8h às 16h). Essa é a carga mais fácil de capturar.
2. Aquecedor: pode ser resistência elétrica (horrível para o payback), bomba de calor elétrica (COP 4-5, razoável) ou coletor solar térmico (quase de graça). Aquecedor a resistência rodando à noite é o maior destruidor de payback solar que existe. A bomba de calor faz diferença, mas exige avaliação separada do porte do sistema fotovoltaico.
3. UV/Ozônio: cargas pequenas (100-400 W), geralmente em ciclos curtos, fácil de controlar via timer diurno.
A decisão central não é “qual painel comprar” — é qual dessas cargas você consegue deslocar para o período solar (8h-16h). Isso muda o payback em até 3 anos, como vou mostrar nos 3 perfis abaixo.
Tabela: consumo típico de piscina por componente
| Componente | Potência | Horas/dia | Consumo/mês | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Bomba 1 cv (piscina 40-60 mil L) | 750 W | 8h | ~180 kWh | Noturno = não captura solar |
| Bomba 1,5 cv (piscina 60-90 mil L) | 1.100 W | 8h | ~264 kWh | Comum em cidades quentes |
| Aquecedor resistência 6 kW | 6.000 W | 4h | ~720 kWh | Ruim — evite |
| Bomba de calor 5 kW (COP 5,0) | 5.000 W | 4h | ~600 kWh geração; ~120 kWh elétrico | COP compensa |
| UV 200 W | 200 W | 6h | ~36 kWh | Fácil de solucionar |
Fontes de referência de potência e COP: PROCEL/ELETROBRAS — Catálogo de Eficiência Energética 2025 e INMETRO — Tabela de eficiência de equipamentos.
Os 3 perfis: payback calculado
Usei as premissas padrão que aplico em todo cliente: degradação real do módulo de 0,55% ao ano (TOPCon/PERC em campo, não datasheet), troca do inversor string no ano 12 por R$ 4.200, manutenção R$ 380/ano, e o escalonamento do Fio B da Lei 14.300/2022 (60% em 2026, 75% em 2027, 90% em 2028, 100% a partir de 2029 sobre a energia injetada) — confira como o Fio B afeta o payback por região.
Perfil 1 — “Piscina noturna, São Paulo” (pior caso)
Casa: 4 pessoas, consumo residencial base 350 kWh/mês. Piscina 55 mil L, bomba 1 cv e bomba de calor 5 kW rodando das 20h às 8h. Consumo total: ~730 kWh/mês.
Sistema instalado pelo integrador: 8 kWp, custo R$ 38.000.
Tarifa: Enel SP B1, R$ 0,93/kWh (bandeira amarela, ICMS 18%). HSP São Paulo: 4,5 kWh/m²/dia (CRESESB).
Geração mensal: 8 × 4,5 × 30 × 0,80 = ~864 kWh. Problema: 380 kWh da piscina são noturnos. O sistema injeta crédito, mas com Fio B em 60%, cada kWh injetado vale 0,4 × R$ 0,93 = R$ 0,37 (autoconsumo = R$ 0,93). Esse “vazamento” noturno faz o sistema trabalhar pra rede e recuperar com desconto.
Economia real mensal: ~R$ 590. Payback simples: 6,4 anos.
Perfil 2 — “Piscina diurna programada, Recife” (caso intermediário)
Casa: 4 pessoas, consumo base 300 kWh/mês. Piscina 50 mil L, bomba 1 cv e bomba de calor. Timer ajustado para 7h-18h — captura quase todo o ciclo solar.
Sistema: 7 kWp, custo R$ 33.500.
Tarifa: Neoenergia PE B1, R$ 0,91/kWh. HSP Recife: 5,5 kWh/m²/dia.
Geração mensal: 7 × 5,5 × 30 × 0,80 = ~924 kWh. Com piscina no horário solar, autoconsumo sobe para ~65% da geração. Menos injeção, mais uso direto, menos perda pelo Fio B.
Economia real mensal: ~R$ 710. Payback simples: 4,7 anos.
A diferença entre Perfil 1 e 2 não é o sol (Recife tem mais, mas não é só isso) — é o horário da piscina. Só o ajuste do timer valeria ~1 ano de payback mesmo em SP.
Perfil 3 — “Piscina com coletor térmico, Goiânia” (melhor caso prático)
Casa: 4 pessoas, consumo base 320 kWh/mês. Piscina 60 mil L, bomba 1 cv. Aquecimento por coletor solar térmico (instalado junto ao sistema FV, custo adicional R$ 6.000) — elimina a bomba de calor elétrica completamente. UV com timer diurno.
Sistema FV: 5 kWp, custo R$ 26.000 (+ R$ 6.000 térmico = R$ 32.000 total no projeto).
Tarifa: Enel GO B1, R$ 0,87/kWh. HSP Goiânia: 5,4 kWh/m²/dia (CRESESB).
Geração mensal FV: 5 × 5,4 × 30 × 0,80 = ~648 kWh. Com consumo noturno reduzido (sem bomba de calor), autoconsumo chega a ~72%.
Economia real mensal (FV + térmico): ~R$ 760. Payback total (R$ 32.000 ÷ R$ 760 × 12): 3,5 anos.
Esse é o único perfil onde eu diria pro cliente “fecha sem pensar muito”. TIR de projeto chega a 21% ao ano — esse nível de consumo elevado é exatamente o perfil onde solar fecha conta mais rápido.
Tabela-resumo dos 3 perfis
| Perfil | Cidade | Consumo/mês | Custo sistema | Economia/mês | Payback simples |
|---|---|---|---|---|---|
| Piscina noturna (pior caso) | São Paulo | ~730 kWh | R$ 38.000 | R$ 590 | 6,4 anos |
| Piscina diurna programada | Recife | ~620 kWh | R$ 33.500 | R$ 710 | 4,7 anos |
| Coletor térmico + FV | Goiânia | ~520 kWh (FV) | R$ 32.000 | R$ 760 | 3,5 anos |
Minha escolha e por que
Se eu fosse montar esse projeto hoje para um cliente com piscina, a ordem de decisão seria:
- Primeiro, arruma o horário: timer da bomba e do aquecedor para 8h-16h, antes de dimensionar o sistema. Isso reduz o kWp necessário e melhora o autoconsumo.
- Se tem espaço de telhado: coletor solar térmico junto ao projeto FV. Custo adicional de R$ 5-8 mil que elimina a maior carga elétrica da piscina.
- Nunca aquecedor a resistência elétrica: COP de 1,0 vs COP de 4-5 da bomba de calor. A resistência paga mais cara a mesma temperatura — e torna o sistema FV menor se você tiver a bomba de calor.
- Dimensionar pelo consumo real após o ajuste de horário — não pelo consumo antes. O consumo noturno que não é capturado pelo solar continua pesando na conta, e um sistema superdimensionado pra cobrir isso custa mais sem proporcional retorno.
Eu não faria o Perfil 1 sem antes corrigir o timer. Pagar R$ 38 mil pra payback de 6,4 anos quando R$ 0 e um timer resolve 1,7 ano dessa diferença é dinheiro jogado fora.
FAQ
O solar fotovoltaico pode alimentar a bomba de calor da piscina? Sim — a bomba de calor é uma das melhores cargas para casar com FV porque é previsível, grande e desloca bem para o período solar. O erro é deixar ela no modo automático noturno de fábrica. Programe o horário e o resultado muda radicalmente.
Vale a pena ter bateria residencial só por causa da piscina noturna? Em geral, não. Uma bateria LFP de 10 kWh custa R$ 18-22 mil e tem payback próprio de 8-12 anos em 2026 (taxação do Fio B prejudica ainda mais a bateria no Brasil). A solução mais barata é programar as cargas para o dia — e guardar a bateria para quem tem outro motivo (backup, tarifa branca noturna baixa, off-grid parcial).
Minha conta tem R$ 200 de piscina e R$ 300 de resto. Vale o solar? R$ 500/mês de consumo total é exatamente o perfil limítrofe. Com piscina diurna e Nordeste/Centro-Oeste, fecha conta. Com piscina noturna em SP, fica no limite. Faça a conta de autoconsumo antes de assinar.
Fontes
- ANEEL — Lei 14.300/2022, microgeração distribuída e TUSD-Fio B: https://www.gov.br/aneel/pt-br/centrais-de-conteudos/principais-temas/microgeracao-e-minigeracao-distribuida
- ANEEL — Tarifas vigentes 2026 (Enel SP, Neoenergia PE, Enel GO): https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas
- CRESESB — Atlas Solarimétrico do Brasil (HSP por cidade): http://www.cresesb.cepel.br/index.php?section=sundata
- PROCEL/ELETROBRAS — Catálogo de Eficiência Energética, bomba de calor: https://eletrobras.com/pt/Paginas/Procel.aspx
- INMETRO — Programa Brasileiro de Etiquetagem, eficiência de equipamentos: https://www.gov.br/inmetro/pt-br/assuntos/avaliacao-da-conformidade/programa-brasileiro-de-etiquetagem
Escrito por
Bruno Aragão
Cobertura editorial independente de energia solar fotovoltaica residencial no Brasil — dimensionamento, payback, equipamentos e Lei 14.300.


